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Jovem do Cartaxo apostou num ofício em risco de extinção

Jovem do Cartaxo apostou num ofício em risco de extinção

Fernando Santos é sapateiro no Cartaxo. Admite ter tido vergonha do que faz mas percebeu que aquele é um trabalho como outro qualquer. “As pessoas ficam contentes por ver um cachopo trabalhar num ofício que pensam que é para velhos”, sublinha.

Edição de 20.10.2016 | Identidade Profissional

Fernando Santos nasceu em Paço de Arcos, concelho de Oeiras, e com quatro anos veio viver para o Cartaxo. Queria ser futebolista mas como não gostava de correr escolheu ser guarda-redes. Passou pelos escalões jovens do Sport Lisboa e Cartaxo e do Estrela Ouriquense, mas nunca singrou nas balizas.
Em 2006 foi estudar informática na Escola Técnica e Profissional do Ribatejo em Tremês, concelho de Santarém. “Gosto de mexer e desmontar computadores mas nunca pesquei nada de programação”, revela. Com 17 anos concluiu o curso e tirou um ano de férias. Foi trabalhar para uns armazéns em Azambuja e passados seis meses os sapatos surgiram na sua vida.
Começou a trabalhar numa loja de restauro no início de 2012, com o sapateiro Pedro Valentim, a sua esposa, Vânia Bonfim, e o irmão André durante um ano. Entretanto foi estudar novamente. “Ingressei num curso de desenvolvimento de produtos de multimédia e de android na Universidade Lusófona, porque sempre tive curiosidade nessas áreas”, conta.
Depois do curso Pedro Valentim abriu de novo os braços a Fernando que não conseguiu trabalho na área da informática. “Eles ensinaram-me tudo o que sei. Capas para sapatos, fechos para malas, coser solas, meias solas, fechos em botas, tudo”, enumera. “Sempre tive jeito em trabalhos manuais e nunca tive dificuldade em aprender este ofício e também gosto de ter as mãos sujas”, acrescenta.
Com Pedro Valentim e a sua família a serem solicitados cada vez mais para o artesanato, um ano depois, em Março de 2015, a loja fechou com os últimos seis meses a serem geridos por Fernando Santos. Seguiu-se uma passagem por uma imobiliária em Santarém que nunca satisfez o jovem e ao fim de um ano surge a ideia de um negócio próprio: “precisava de entrar no mundo dos adultos e de ter responsabilidades”, aponta. E a altura era ideal: “Os Valentins tinham saído do Cartaxo e o senhor Manuel (um sapateiro muito conhecido no concelho) infelizmente teve um AVC que lhe imobilizou metade do corpo”.
“Quando comecei a trabalhar nisto tinha vergonha mas vergonha é roubar e ser apanhado”, diz. O espaço fica na Travessa do Comendador, a cerca de 20 metros da Rua Batalhoz, e está apetrechado com quatro máquinas que Fernando encontrou à venda no OLX (site de compras e vendas). “Consegui o conjunto de um antigo sapateiro de Lisboa”: máquina de acabamentos, prensa, máquina de costura e uma máquina para coser rastos e solas mais rijas que custaram cerca de 2 800 euros. O pacote trazia ainda uma forma para alargar sapatos, saltos, atacadores, capas, peles e outros materiais.
“Foi a minha avó Arlete Soares que apostou em mim. Com 10 mil euros fiz a festa toda: máquinas, espaço, renda antecipada, luz, material, tudo!”, afirma. Em Março o jovem de 24 anos abriu a loja O Sapateiro - restauros e clínica de sapatos. “Tive 15 dias mais fracos, mas com alguma propaganda e o boca a boca foi crescendo”, conta.
A média diária tem sido de 10-15 clientes o que permite a Fernando viver e pensar numa casa, apesar de ainda viver com os pais. Grande parte dos clientes são do Cartaxo mas há quem venha “de propósito” de Azambuja ou de Santarém. A sua namorada, Joana Diogo, também ajuda quando pode: “Atende clientes, engraxa sapatos, faz moldes ou cortes e tem aqui uma ajuda financeira para os estudos - ela quer ser juíza”. O jovem sapateiro confessa que teve algumas dúvidas se a aposta ia correr bem. “Foi um risco, mas as pessoas ficam contentes por ver um cachopo de 24 anos trabalhar num ofício que está em extinção e que pensam que é para velhos. E com a crise já ninguém manda os sapatos fora, até mesmo os dos chineses”, aponta.

Jovem do Cartaxo apostou num ofício em risco de extinção

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