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O negócio das touradas é um jogo de roleta russa

O negócio das touradas é um jogo de roleta russa

Há praças que enchem e dão milhares de euros a ganhar e outras onde os toureiros nem sequer recebem pela corrida. Nené e Rui Bento Vasques falam de como é estar no ramo da tauromaquia como empresários e aficionados.

Edição de 20.10.2016 | Sociedade

“Sou um empresário tauromáquico profissional, há quem o faça por hobby... O meu dia-a-dia é estar no escritório a delinear situações, a planear corridas e cartéis, a pensar em estratégias já para a próxima época. À tarde vou ao campo, ver se os toiros evoluíram. Claro que este é um negócio rentável, se não o fosse eu não estaria envolvido”, esclarece António Manuel Cardoso, mais conhecido por Nené, 52 anos, o veterano dos empresários da área da tauromaquia, antigo forcado de Alcochete, terra onde nasceu e onde gere também a praça de toiros.
Não se furta à verdade: “Já fechei anos com prejuízo, mas este ano [2016] deve estar equilibrado”, confessa. Na altura em que O MIRANTE entrevistou o empresário, faltavam ainda duas corridas para o final da época. Aqui, o jogo também pode ficar decidido no último minuto. Nené idealizou um cartel, mas é como ele mesmo assegura: “Isto é como jogar na roleta russa. Escolhemos os cartéis que julgamos que as pessoas gostam, apostamos, desejamos que seja rentável. Às vezes é, outras não”, simplifica.
Diz-se que um matador de toiros tem de ter “ilusão”, que corre coragem nas veias de um forcado e que um cavaleiro tem de saber transmitir “emoção” ao público. Tudo o que acontece na arena, no meio do pó, ao som dos aplausos ou das vaias vindas das bancadas, nasce numa mesa de escritório, numa caminhada num campo, numa negociação feita olhos nos olhos. Os empresários tauromáquicos de sucesso podem fazer tudo pela festa brava ou destruí-la. Falámos com dois: Nené, o mais antigo, e Rui Bento Vasques, toureiro português e antigo matador de toiros e que é, desde há dez anos, o gestor da Praça de Toiros do Campo Pequeno.
Vieram ambos do campo, suaram e derramaram sangue na arena, mas adoptam discursos diferentes. Rui Bento Vasques, 51 anos, fala em “balanço”, mas não quer avançar o deste ano - tal como no caso de Nené, ainda faltavam duas corridas para o fecho da época. Mas garante que na “sua” praça, ou melhor, na praça que foi convidado a gerir em 2006, e onde trabalham, só na área tauromáquica, 18 pessoas, o balanço só pode ser positivo. “É a principal praça do país, por isso é um barómetro - contratamos os toureiros e os forcados mais conceituados”, resume.
Tem um sorriso no rosto. Mas escuta os queixumes de outros empresários, conhece as histórias, é veemente contra as manhas que ferem de morte a dignidade da festa, como a de se fazerem corridas onde os toureiros não são remunerados. Todos conhecem os casos, nem sequer se conta em sussurro. Sabe-se que acontece. Ou porque os cavaleiros querem ser conhecidos ou porque a praça está a ser mal gerida. Há muitas justificações. “Isso nunca aconteceria numa praça minha nem com um apoderado meu”, garante Rui Vasques.

O espectáculo podia melhorar
Nené garante que o negócio das corridas de toiros é rentável, assim como o é o da carne que é depois vendida para os matadouros. Rui Bento Vasques sublinha a “perspectiva de sustentabilidade económica da Praça do Campo Pequeno”. Mas, afinal, o negócio está em crise? Rui Vasques contacta com toureiros, em Portugal e em Espanha, e confessa: “A crise é uma crise global. Mas as tradições estão enraizadas no nosso povo, sobretudo no Alentejo, Ribatejo e Estremadura. Se as pessoas têm menos dinheiro, não vão a mais do que duas ou três corridas”, justifica.
O espectáculo também poderia melhorar. “Faltam valores e três ou quatro nomes de referência. Não quer dizer que não existam valores, mas ou não têm tido oportunidades ou não as têm sabido aproveitar”, aponta.
Nené que começou como forcado, por causa de um tio que nunca chegou a conhecer mas de quem herdou o barrete de campino, foi um dos fundadores do Grupo de Forcados de Alcochete. “Eu não tinha dinheiro para comprar cavalos, por isso dava o corpo às balas, como se diz”, recorda.
Os forcados andam na festa “a troco de nada, são os românticos”, diz o empresário, que iniciou a sua actividade a pegar toiros em 1982, na Praça de de Cascais, numa corrida de homenagem a Francisco Sá Carneiro. Actualmente gere cinco praças de toiros: Évora, Alcochete, Moura, Amareleja e Arronches e é apoderado de dois cavaleiros: José Ribeiro Telles Jr. e António Prates.

Praças pouco cheias, bilhetes caros compensam
Há cavaleiros que à partida já se sabe que vão atrair público, “encher a casa”, como se diz. Espanhóis, sobretudo. Pablo Hermoso de Mendonza e Diego Ventura são estrelas que os portugueses gostam de ver na arena. Não cobram menos de 40 mil euros por corrida, assegura a O MIRANTE fonte próxima do mundo empresarial tauromáquico. E os preços dos bilhetes variam: no Campo Pequeno o mais barato custa 15 euros e o mais caro 75, mas há desconto para jovens e aposentados.
Nas praças que Nené gere, os bilhetes custam entre os 10 e os 50 euros. “Muitas vezes as praças podem nem sequer estar cheias, mas foram vendidos os melhores lugares - os bilhetes mais caros, porque trouxemos bons cavaleiros. E isso continua a ser rentável”, exemplifica o empresário de Alcochete.
A indústria move dinheiro, muito dinheiro, e precisa também de muita injecção de verbas. Há que sustentar cavalos e toiros - de uma centena, apenas quatro ou cinco animais poderão ficar aptos para uma corrida e tem de se esperar quatro anos. Há empregados nos campos, o custo dos transportes, o que falta é... estratégia. Nené (ganhou a alcunha de um ex-jogador de futebol quando batia bolas no Grupo Desportivo Alcochetense), garante: “Em Portugal não se faz cultura taurina, não se ensina, não se explica, não se incentiva. Basta olhar para o que se faz em Espanha e comparar...”.
Rui Vasques partilha a mesma opinião: “Falta comunicação por parte da tauromaquia e os próprios cavaleiros isolam-se. Este é um trabalho de fundo, estratégico e existe uma grande falta de visão para entender que se tem de fazer esse trabalho de comunicação”, repete o gestor da Praça de Touros do Campo Pequeno.

“Neste momento o tema dos toiros não é conveniente”
Difícil não pode ser. Danoso, só para alguns. A crer nas palavras de Rui Vasques: “ Todas as praças podem ser sustentáveis e rentáveis. Consegui que isso acontecesse em todas praças onde trabalhei: Póvoa de Varzim, Nazaré, Estremoz, Figueira da Foz... E aqui no Campo Pequeno, posso dizer que, apesar da crise, entre 2012 e 2015 aumentámos as receitas. Não tenho olhos azuis, não deve ser esse o motivo”, ironiza.
Rui é também apoderado de dois cavaleiros: João Moura Jr. e do espanhol Juan del Álamo. Por causa da sua experiência em Espanha e da forma como a tauromaquia é vivida no país vizinho, o que acontece actualmente em Portugal deixa-o desgostoso. “Lidar com pessoas é mais difícil do que lidar com toiros: as pessoas podem ter boas ou más intenções”, afiança.
Falamos da corrente actual em que se geriu “uma onda sociocultural desfavorável em relação à tauromaquia. Os anti-taurinos têm estado muito bem organizados nas redes sociais, tem sido como uma bola de neve, muitos aficionados não dão a cara, porque no momento não é bem visto”, critica Rui Bento Vasques.
O que é que tem de mudar, então, para a festa brava não esmorecer? O empresário é célere na resposta: “Trazer estrelas, porque isso chama a comunicação social. A maior parte dos meios [de comunicação social] utilizam o politicamente correcto e neste momento o tema dos toiros não é conveniente”. E, acima de tudo, iniciar uma “reestruturação organizativa”. O que em miúdos significa que “algumas praças e algumas empresas que usam essa prática de não pagar aos toureiros devem ser afastadas”.

Famílias financiam novos cavaleiros

Nené sempre o soube: não vinha de uma família abastada, mas gostava de toiros, por isso fez-se forcado. Mas quando um jovem quer ser cavaleiro e vem de uma família de tradição tauromáquica tem a vida facilitada. Claro que é necessário o talento. A tal “ilusão”. Mas durante muitos anos são as famílias que sustentam estes jovens toureiros. “É como enviar um filho para a faculdade. Se queremos que ele seja profissional, temos de pagar os estudos”, defende Nené. “Se forem bons, em 6 ou 7 anos conseguem profissionalizar-se. Quem não tem dinheiro e gosta desta vida conhece sempre alguém que o apoia e ajuda”, explica o empresário.

O matador de raízes humildes que fez vibrar Espanha

“Quem não tem dinheiro pode tornar-se toureiro, claro. Eu sou exemplo disso”, diz a O MIRANTE Vítor Bento Vasques, actual gestor taurino da Praça do Campo Pequeno. Filho de carpinteiro e de mãe doméstica, encantou-se pelos toiros em Vila Franca de Xira e um dia pediu uma boleia que haveria de ter muita importância na sua vida. “Foi o sr. António José Viçoso [que anos mais tarde haveria de se tornar seu sogro] que lhe deu uma boleia até Lisboa, para assistir a uma corrida na praça que hoje gere”. E foi ele quem lhe prometeu que haveria de lhe comprar o primeiro fato caso ele se tornasse realmente toureiro, como era o seu desejo. Aconteceu e com grande sucesso. Ninguém ainda esqueceu o Maestro Rui Bento Vasques.

O negócio das touradas é um jogo de roleta russa

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