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“As macacadas e palhaçadas são a minha reacção à violência da realidade”

“As macacadas e palhaçadas são a minha reacção à violência da realidade”

João Melo diz que nunca gostou do Verão e que a canção que o celebrizou é um exercício de ironia

Edição de 22.12.2016 | Entrevista

O músico que ficou conhecido como vocalista da banda Fúria do Açúcar está de regresso às origens. Vive há cerca de três anos em Alhandra, com a filha, Beatriz, de 16 anos. Ainda é reconhecido na rua e continua a sentir-se o mesmo “freak” de sempre. Não quer regressar ao “circo mediático”, mas não se afastou da música.

João Melo não costuma dar entrevistas. Não nesta fase, depois do fim da banda que o tornou famoso e dos programas de televisão que “adorou” fazer. “Costumo dizer aos jornalistas que estou fora do país. Mas O MIRANTE é um jornal local e podiam ver-me a passear na rua”, confessa com humor. Aliás, foi essa forma solta e “estranha” de ser que o levou a atingir um sucesso que nunca previu. Nem sempre foi assim. “A minha família é de Vila Franca de Xira e eu só fui nascer a Lisboa. Os primeiros anos foram passados aí, só depois é que a minha família se mudou para Alhandra”, recorda o músico, de 55 anos. “Eu era muito alto para a idade, pensava de forma diferente e não me encaixava em nada. Depois estávamos desenraizados, não tínhamos família em Alhandra e eu entrei para uma escola onde todos os miúdos já se conheciam uns aos outros”, conta. Resultado: “Não tinha amigos”, recorda, com uma gargalhada estridente, uma das suas imagens de marca.

A família nunca gostou do seu mediatismo
Sentir-se diferente, na altura, entristecia-o. A sua defesa era a criatividade... e a música. Concluiu a escola primária em Alhandra e depois fez o 5º e o 6º ano num externato através da telescola. É então que regressa a Vila Franca de Xira, onde acaba o liceu, na Escola Secundária Padre António Vieira. Apesar de “estranho”, a altura valeu-lhe uma posição como jogador de basquetebol no Vilafranquense. É fã do desporto e torce pelos Chicago Bulls, por causa de Michael Jordan. No entanto, o seu objectivo nunca foram os afundanços e os gritos dos adeptos...
João Melo é filho e neto de músicos amadores. Cresceu rodeado do som de instrumentos e foi o pai quem lhe ensinou a tocar guitarra e órgão. “Em casa ouvia Beatles, mas também música erudita - que era o que o meu pai gostava - e música ligeira, a preferida da minha mãe”, lembra. Era a altura em que os Festivais da Canção eram um acontecimento e João Melo não perdia um. Mas não se imaginava num palco. “Na altura não pensava fazer carreira na música, essa era só mais uma das minhas facetas”, diz.
Quando os Fúria do Açúcar “explodiram”, no início os anos 90, a família não gostou. “Aliás, anda hoje não gostam. A minha mãe é enfermeira, não gosta deste circo, nunca ligaram muito àquilo que eu fazia”, confessa. E também não gostaram nem um bocadinho quando João abandonou o curso de Línguas e Literaturas Modernas a meio para se dedicar inteiramente à música: “Já tocava em muitos bares em Lisboa e ganhava muito dinheiro”.

“Não sou extrovertido”, diz o músico
A música corre no sangue da família, mas João Melo foi o único a aventurar-se a cantar (durante esta entrevista cantou várias vezes refrões de músicas, desde Simone de Oliveira a Pink Floyd). O objectivo, no entanto, não era só cantar. “Sempre fui de fazer macacadas e palhaçadas e unia isso à música. Mas não sou extrovertido, sou assim porque esta é a minha reacção à violência da realidade”, confessa.
Quando descobriu que podia fazer uma carreira na música deixou o curso para trás e correu muitos bares de Lisboa, mas também de Vila Franca de Xira. Apesar de ter a certeza de que o público não o entendia. “Os donos dos bares contratavam-me porque eu era engraçado. Brincava, fazia piadas, trocava as letras das músicas e às vezes quem estava a assistir não percebia a ironia”, recorda.
Aconteceu o mesmo com o tema “Eu gosto é do Verão”, lançado em 1997 e que foi um estrondoso sucesso. “Eu não gosto do Verão. A letra era uma ironia, mas sei que a maior parte dos que ouviam nunca percebeu isso”, revela. O seu humor era torto e imprevisto, o público não estava habituado ao sarcasmo nem à tontice inteligente, até que surgiu Herman José. “Quando ele apareceu foi a pedra de toque na minha carreira. Antes dele, ficava tudo a olhar para mim, sem perceber nada”. Não se livrava da etiqueta de “estranho”. Mas isso acabou por lhe trazer vantagens. No amor, por exemplo: “Algumas mulheres gostam de homens estranhos”, confessa, com nova gargalhada à João Melo.

O cantor vive entre Alhandra e Macau
Desde o nascimento dos Fúria do Açúcar, João fez muitas outras coisas: apresentou programas na televisão, entrou num reality-show, foi para Londres tocar com uma banda durante dois anos, regressou a Portugal, teve uma filha, viveu em Madrid e em Bruxelas, até que há três anos parou. Escolheu Alhandra para criar raízes, ainda que nunca muito presas à terra. “Vivo entre Alhandra e Macau”, onde está envolvido numa ideia de negócio que diz ser mais “um propósito de vida”.
“Ainda não posso falar muito sobre isso, porque está numa fase embrionária, mas posso dizer que é uma área de negócio mas com uma função social muito importante e foi isso que me cativou”. Não é um projecto ligado à música, mas João Melo nunca se distancia muito desta. “Estou a compor para uma cantora chinesa. Faço a parte instrumental e escrevo as letras em inglês”, revela.
Os convites para fazer televisão continuaram a existir, mas o músico confessa que já não lhe apetece “fazer parte do circo” e que agora o trabalho em televisão é “mal pago”. Passou a barreira dos 50, mas nem foi a idade que o mudou, mas sim coisas maiores, como o nascimento de Beatriz, hoje com 16 anos. “Desde 2013 que vivo com ela em Alhandra, numa casa em frente à casa da minha mãe. É ela quem me ajuda com a Beatriz quando estou em Macau”, explica. É pai de uma adolescente, mas garante que a tarefa não é nada complicada”. “Ela é igual a mim, é esquisita como eu”. Sim, João Melo continua a sentir-se um “freak”. Sem problemas.

Um músico, dois actores e muito humor

Os Fúria do Açúcar nasceram não como uma banda, mas como “uma espécie de stand-up comedy musical”, recorda João Melo, que era o único músico da primeira formação. Os actores Renato Solnado e João Didelet eram os outros dois membros do grupo. A banda, nascida em 1991, acabaria por tornar-se a banda residente do programa da RTP1 “Riso, Mentiras e Vídeo”, apresentado pelo vocalista João Melo. Foram músicas como “Joana bate-me à porta” e “Eu gosto é do Verão”, do segundo álbum (O Maravilhoso Mundo do Acrílico) que lançaram a banda para a ribalta. O músico decidiu acabar com o grupo em 2013, por falta de “disponibilidade”, mas continua a escrever na página de Facebook dos Fúria do Açúcar e mantém a amizade com todos os ex-membros da banda.

Os OVNIS de Alhandra

“Uma das minhas melhores memórias em Alhandra era de quando ia com alguns amigos para o cais comer pão quente e beber... coca-colas [ri-se porque não quer dizer que bebiam cerveja]. Numa dessas noites, “ainda não tínhamos começado a beber, quando vimos uma luz que parecia um satélite, mas vinha muito depressa e quase por cima de nós, fazia um ângulo recto e seguia para o lado de Lisboa. Foram seis ou sete assim que eu vi nessa noite”. Anos mais tarde, presenciou a trajectória de outro Objecto Voador Não Identificado. “Foi na A1, perto de Fátima. Vinha de uma apresentação com o meu agente quando vimos uma luz muito brilhante: era uma bola grande de um verde metálico que nunca mais vi na vida. Vinha como se fosse a cair, mas depois fez um movimento e voltou a subir. Por isso, sei que não era um meteorito”, contou o músico, que é apaixonado por Astronomia.

“As macacadas e palhaçadas são a minha reacção à violência da realidade”

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