
“Até aos catorze anos estudei em dez escolas diferentes”
Cristina Pereira é directora do Cavendish House em Azambuja
Nasceu em Moçambique, cresceu e estudou na África do Sul. Quando veio para Portugal tinha 25 anos. Cristina Pereira fala um português perfeito aprendido oralmente em casa com os pais, enquanto criança e adolescente mas a sua língua materna é o inglês e é através dela que melhor se sabe expressar. Vive em Azambuja e é directora e professora de inglês no instituto de línguas Cavendish House. Diz que a luta dos professores para captar a atenção dos alunos da geração dos smartphones é muito difícil e exige um grande esforço.
A primeira vez que vi Portugal foi aos 25 anos. Foi quando eu e os meus pais viemos da África do Sul. Fomos viver para Azambuja porque os meus pais tinham lá um apartamento e alguma família. Quando cheguei vi-me obrigada a mudar de área profissional. Sou técnica de serviço social, da área de ensino, mas em Portugal fiz formação e tornei-me professora de inglês para estrangeiros.
Nasci e cresci a ter de lidar com pessoas de todas as raças e religiões, sob um regime muito conservador. Iniciei a escola na África do sul de onde trago as melhores memórias de infância e juventude. Tínhamos um estilo de vida bom mas muito conservador e com muitas regras. Ao Domingo, por exemplo, toda a comunidade branca tinha de pôr o chapéu e ir à missa.
Devido a questões de segurança frequentei 10 escolas até aos 14 anos. Foi até nos fixarmos em Joanesburgo. Hoje olho para traz e acho que foi essa experiência que me deu uma certa resistência aos problemas da vida. Foi também nessa altura que aprendi a ser autónoma e independente. E aprendi também a relativizar os problemas e a saber relacionar-me com as pessoas. Algumas amizades que fiz, a partir do momento em que assentamos, mantêm-se, apesar do tempo e da distância.
Não sou uma pessoa saudosista. Se fosse acho que não conseguia viver a minha vida. Passei por muitas mudanças e por várias lutas políticas e sociais na África do Sul. Para mim tudo foi enriquecedor enquanto pessoa, o bom e o mau. Gostava de voltar lá e de levar as minhas filhas mas tenho medo do que vou encontrar. A África do Sul que eu deixei já não existe.
O inglês abre-me muitas portas e permite-me comunicar com mais pessoas. Cresci com duas línguas, sou um exemplo daquilo que é uma escola bilingue. Não tenho escola de português, a minha escola foi toda em inglês, mas os meus pais fizeram questão de falar português em casa porque estar exposta a uma língua é a melhor forma de a aprender.
Nasci em Moçambique e a minha mãe diz que sou filha do mato. Talvez por isso goste do campo, da paz, do sossego e de estar isolada. Há quem viva para ir para a praia e adore estar o dia todo ao sol, mas isso não é para mim. Gosto de estar sossegada a cuidar da minha horta, num terreno aqui em Azambuja.
Sou uma mulher de negócios por circunstâncias da vida e professora por paixão. Adoro ser professora e nunca me passou pela cabeça abrir e gerir um negócio. O Cavendish House foi-me deixado em herança pela antiga dona, Patricia Smyth (falecida a 5/8/2011). Já trabalho cá desde 1992 e hoje dou aulas a filhos de pessoas a quem também dei aulas.
Por vezes os professores têm que competir com telemóveis e jogos de computador. Acho que hoje é mais difícil exercer a profissão. Captar a atenção dos alunos. Eu percebo que os alunos passam o dia na escola e às vezes não lhes apetece vir aprender inglês mas é necessário. Vivemos num mundo cada vez mais global e os jovens precisam de falar e escrever bem a língua inglesa porque ela precisa de deixar de ser vista como uma língua adicional e ser entendida como uma língua essencial.
As minhas filhas só me escrevem em inglês porque sempre cresceram próximas da língua. Eu falo bem português mas na escrita exprimo-me melhor em inglês e as minhas filhas sabem que recados e mensagens só são escritos em inglês. Também falamos em inglês em casa e com outros elementos da família. Quanto mais cedo se aprender melhor e quanto mais se praticar mais fluência se adquire.
O melhor desafio da minha vida foi ter feito o caminho de Azambuja a Santiago de Compostela a pé. Foi a viagem mais incrível e maravilhosa que eu tive na minha vida. Deu-me a oportunidade de contactar com outros povos, outras culturas, num espírito de partilha e entreajuda. O mais fantástico é que cada pessoa tinha uma história, por trás daquela viagem.

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