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“Santarém está cheia de consumidores de cocaína”
Estudantes de medicina ouviram relatos de quem se procura livrar do vício

“Santarém está cheia de consumidores de cocaína”

Consumo de cocaína e álcool está a aumentar na região. O Centro de Respostas Integradas do Ribatejo acompanhou durante 2018 quase 1.500 pessoas, devido ao consumo de drogas, mas ainda há muitas famílias que preferem lidar com o problema dentro das quatro paredes em vez de procurar ajuda especializada.

Edição de 06.03.2019 | Sociedade
Isabel Baptista é a coordenadora técnica do Centro de Respostas Integradas do Ribatejo

O consumo de cocaína e álcool está a aumentar no distrito de Santarém. Em 2018 foram acompanhados no Centro de Respostas Integradas (CRI) do Ribatejo 1.485 doentes, na maioria devido a consumos de cocaína e álcool. Com o consumo de heroína a cair, as preocupações centram-se agora no consumo de álcool entre a população mais velha e adolescentes. A cocaína é a droga ilícita que está a ganhar terreno no distrito.
Contudo, estes números não reflectem a realidade da região por diversas razões. No que toca ao consumo de álcool entre os jovens, os próprios pais desvalorizam e não procuram ajuda especializada. “Cada caso é um caso e por vezes chegam até nós numa fase já muito avançada de consumo. Outros, infelizmente nem cá passam”, diz Isabel Baptista, coordenadora técnica do CRI do Ribatejo, que abrange todo o distrito.
No que à cocaína diz respeito, a vergonha é o principal entrave à procura de ajuda no CRI. “Há famílias que eram muito bem estruturadas e nunca tiveram problemas com um familiar que usasse drogas. De um momento para o outro, vêem-se com um caso destes no seio familiar que começou a consumir aos 30 e poucos anos”, refere a técnica.
As famílias preferem esconder os casos entre as quatro paredes de casa. “Há muita vergonha entre a classe média de Santarém em admitir que tem um membro da família que está desestruturado por causa do consumo de droga. Jamais virão ao CRI pedir ajuda. O que acontece é que tentam manter a situação condicionada em casa, o que não é, de todo, um caminho para a solução do problema, muito pelo contrário”, alerta Isabel Baptista.

Santarém está “inundada” de cocaína
O consumo da cocaína é devastador, seja qual for o tipo de consumo feito. “Não há bons e maus consumos, no que à droga diz respeito. O que acontece é que a cocaína fumada ou injectada destrói mais rapidamente, do que quando é inalada. Quem inala pensa que tem tudo controlado. Mas não tem e a médio, longo prazo, isso nota-se, principalmente no desgoverno em que caem as suas vidas”, explica.
A técnica alerta para o facto de Santarém estar “inundada” por esta droga. “Há uns anos era preciso ir a Lisboa para ter acesso à cocaína, agora ela está praticamente em todo o lado. Santarém está inundada por esta droga altamente viciante e com efeitos catastróficos”, alerta Isabel Baptista, coordenadora técnica do CRI do Ribatejo, que abrange todo o distrito.
Mesmo entre os doentes em recuperação no CRI, cuja droga de eleição era a heroína, e que se encontravam sem consumir e com uma vida estruturada, o mercado fácil da cocaína veio desestabilizar. Neste caso não são considerados novos utentes, são doentes em processo de recuperação que recaem com uma nova droga de eleição. “É angustiante ver uma segunda decadência em utentes que já tinham trilhado um longo caminho de sucesso. Tinham a heroína como a chamada droga de eleição e passam para outra, neste caso a cocaína”.

Filhos de alcoólicos levam pais para tratamento
Os consumidores de álcool são quem tem feito aumentar as novas visitas ao CRI. E a realidade está também diferente. São os filhos que agora levam os pais para tratamento. “São doentes alcoólicos que tiveram hábitos de consumo de vários anos e que começam a espoletar doenças crónicas ao nível do fígado e disfunções em outros órgãos”, explica Isabel Baptista.
“O álcool é uma droga muito perigosa, acima de tudo porque é legal e ainda muito bem vista entre a sociedade”, refere a coordenadora técnica do CRI do Ribatejo. Os homens continuam a liderar nos consumos, mas há uma larga faixa de mulheres alcoólicas na região que são muito mais difíceis de trabalhar. “As mulheres chegam muito envergonhadas e com outros problemas sociais mais complexos por resolver. É muito mais difícil trabalhar estes casos”.
Entre a camada mais jovem da população, a cannabis continua a ser a droga mais consumida e a questão da legalização desta substância, que esteve recentemente em discussão, não pode ser tratada com “tanta ligeireza”, reitera Isabel Baptista.

Rafael Fernandes

“Aprendi muito nesta visita”

Rafael Fernandes, 20 anos, natural do Entroncamento, está também a estudar medicina e diz que este dia superou todas as expectativas. “Depois de falar um pouco com os doentes percebi que esta é uma doença muito complexa. Há muita gente que desconhece que se trata mesmo de uma patologia e isso precisa de ser trabalhado”, referiu. “Aprendi muito nesta visita, durante a palestra que foi dada e acima de tudo com o contacto directo”.

O vício da droga é como estar sempre acompanhado pelo diabo

Um grupo de 30 alunos da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa passou um dia na Clínica de Tratamento de Dependências ERA, em Vale da Trave, Alcanede, concelho de Santarém, onde contactaram com doentes adictos em recuperação e assistiram a um testemunho sobre o passado no mundo da droga.
São ainda poucas as pessoas que conhecem o termo adição, sendo que o mais comum é apenas drogado ou alcoólico. Conhecida como a doença da insatisfação que leva à dificuldade em lidar com sentimentos e emoções, quem é adicto “sofre e muito”, sublinhou Fábio Pilet, 28 anos, que revelou aos jovens que viver com esta doença é como estar sempre acompanhado por um “diabo”.
“Destruímo-nos e destruímos tudo à nossa volta. Lembro-me de o meu pai ter apenas 20 euros para dar ao meu irmão mais novo para levar essa semana para escola para comer e eu estar a massacrar para me dar esse dinheiro. Nem queria saber se o meu irmão passaria fome”, relatou Fábio.
“A adição é uma doença crónica como outras doenças do foro psiquiátrico. Aliás, todos temos essa propensão para a adição, a diferença para um doente adicto está em não saber lidar com a compulsividade para atingir o que lhe dá prazer, seja através do uso de drogas, sexo, jogo, entre outras”, refere o conselheiro da ERA de Alcanede, Carlos Ramos.
Esta é uma doença que se torna ainda mais complexa, quando se misturam outros diagnósticos. “Há casos em que um doente adicto pode sofrer de outras doenças como a bipolaridade ou esquizofrenia e nunca sabemos o que surge primeiro e estes casos são os mais complexos de resolver”, explica a psicóloga Isabel Baptista.

Tolerância zero com as drogas
Aquilo que é recomendável para um adicto em recuperação é a chamada “tolerância zero”, ou seja, tudo o que altera psicologicamente o cérebro tem que ser restrito, nem que seja apenas “um copo de vinho socialmente”. E Isabel Baptista explica porquê: “Por causa desse copo, todo um tratamento de anos pode ir por água abaixo. O adicto não tem controlo sobre a sua insatisfação e, mais cedo ou mais tarde, leva-o para outro patamar, porque o álcool deixa de ser suficiente e muito rapidamente passa para a sua droga de eleição, seja a cocaína ou a heroína”.
Actualmente, no CRI 40% dos utentes encontram-se inscritos no programa farmacológico de metadona, uma substância derivada do ópio utilizada no tratamento para adictos em heroína e outros opiácios.

“Santarém está cheia de consumidores de cocaína”

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