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Alunos que se automutilam estão a dar preocupações às escolas
foto DR Alunos que se automutilam pretendem chamar à atenção de colegas ou pais

Alunos que se automutilam estão a dar preocupações às escolas

Dezenas de adolescentes que se cortam de propósito são acompanhados por psicólogos. Alunos que se cortam com x-actos, bicos de compassos e até tampas de canetas pretendem chamar a atenção de colegas ou dos pais, mas também podem estar a reagir a situações sofridas da vida. O certo é que estes actos de automutilação estão a requerer uma atenção redobrada das escolas da região. Os casos ocorrem com adolescentes entre os doze e os 15 anos, mas já houve um caso grave de uma criança de sete anos.

Edição de 27.03.2019 | Sociedade

O Agrupamento de Escolas Vale Aveiras é um dos que regista um grande número de casos de alunos que se cortam ou picam de propósito para chamarem a atenção, por raiva ou sofrimento e raramente por causa de jogos na internet, como aconteceu há uns tempos. Nas escolas deste agrupamento do concelho de Azambuja registaram-se, neste ano lectivo, onze casos de automotilação de adolescentes. As idades, entre os 12 e os 15 anos, são comuns à generalidade das escolas.
No Agrupamento de Almeirim o número de casos aproxima-se da dezena e em Abrantes houve, há dois anos, um caso dramático e que foge aos padrões, de um aluno de sete anos que se mordia repetidamente. Em alguns casos o acompanhamento psicológico tem resultado, como aconteceu com a criança de Abrantes.
Há casos de automutilações potenciados por jogos perigosos na internet como o Baleia Azul ou o Momo. Mas a maioria das situações visa chamar a atenção ou é de reacções a revoltas pessoais. “São jovens que se encontram com problemas psicológicos e, nestas idades, esta é uma das formas de reagirem para darem nas vistas”, explica Helena Coutinho, sub-directora do Agrupamento de Escolas de Almeirim.
O preocupante é que, conforme descreve o director do Agrupamento de Escolas Nº 1 de Abrantes, há crianças que reincidem nesta prática. Jorge Costa refere que a maioria destes casos prende-se com um já “elevado grau de sofrimento pessoal, associado a razões de socialização ou familiares”. Neste agrupamento os primeiros casos registaram-se há sete anos.
Os casos são encaminhados para os psicólogos da escola ou, por opção dos pais, para outros de fora, e é sempre dado conhecimento aos encarregados de educação. No Agrupamento Vale Aveiras, perante o elevado número de situações de alunos que se cortam com bicos dos compassos, x-actos e até mesmo com tampas de canetas, foi também envolvida a associação de pais, o centro de saúde, a GNR e uma equipa de psicólogos da câmara para se tentar controlar o fenómeno.
António Pedro, director do agrupamento, diz a O MIRANTE que os onze casos envolvem exclusivamente raparigas que justificam os actos como “forma de aliviar a dor”, mas “depois não concretizam qual é a dor ou o problema que enfrentam”. Em Almeirim, as situações mais graves ou complexas são comunicadas à Comissão de Protecção de Crianças e Jovens.
As situações tanto acontecem na escola como foram do ambiente escolar, diz o director do Agrupamento de Escolas Artur Gonçalves, de Torres Novas. Acácio Neto refere que são situações que geralmente a escola não consegue controlar, mas salienta que os casos que aparecem são muito poucos.
Tal como acontece com o Agrupamento Ginestal Machado, em Santarém, que também tem registado apenas situações pontuais. O director deste agrupamento, Manuel Lourenço, considera que os adolescentes querem com estes actos “chamar a atenção, seja dos colegas, seja dos pais”.
No Agrupamento Vale Aveiras, os casos estão divididos por duas turmas, mas diferem entre si, pois algumas das jovens têm patologias depressivas associadas. Outras automutilam-se por “curiosidade, rebeldia e irreverência”, explica Maria Manuel, coordenadora do projecto educação para a saúde do agrupamento.
Neste caso, os pais também podem ter apoio psicológico dos psicólogos da Câmara de Azambuja, confirma a vereadora Sílvia Vítor. Em Maio de 2017, o agrupamento já tinha solicitado a todos os directores de turma e assistentes operacionais para estarem alerta a qualquer sinal que possa indicar a existência do jogo da “Baleia Azul”, de forma a prevenir novas situações e promover uma intervenção atempada.

Pais entre a indiferença e a preocupação

As situações de automutilação dos adolescentes preocupam os pais, mas há alguns que ligam mais ao assunto que outros e há mesmo quem não mostre muito interesse pelo problema. Prova disso é o facto de as sessões de esclarecimento sobre cyberbullying promovidas pelo Agrupamento de Escolas Vale Aveiras terem uma fraca adesão dos encarregados de educação. Situação lamentada pelo director do agrupamento, António Pedro.
A escola não pode trabalhar de forma isolada e é essencial que as famílias estejam atentas aos comportamentos, como o isolamento constante, falta de diálogo e ligação excessiva ao mundo virtual, alerta a coordenadora do projecto educação para a saúde do agrupamento, Maria Manuel.
A sub-directora do Agrupamento de Escolas de Almeirim, Helena Coutinho, esclarece que há duas reacções por parte dos encarregados de educação. Uns encaram as situações “com ânimo leve, outros ficam mesmo muito preocupados e seguem com os filhos para consultas de psicologia”.
A presidente da Associação de Pais do Agrupamento Vale Aveiras já levou as questões da automutilação à última assembleia, a 22 de Fevereiro. Carla Santos diz a O MIRANTE que os pais não estão preparados para lidar com estas situações, lamentando que muitos jovens tenham acesso à internet sem qualquer vigilância dos progenitores.

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