As beatices de um Estado Laico
Primaveril Manuel Serra d’Aire
Dizem as enciclopédias que vivemos num Estado republicano e laico, mas acho que só a primeira parte é verdadeira, pois até a nossa GNR, fiel zeladora da nossa segurança e do nosso regime, já se converteu assumidamente à religião dominante. Na passada semana fiquei embasbacado com uma notícia que dava conta de uma peregrinação/marcha a cavalo a Fátima, organizada pela Guarda Nacional Republicana, que começou com uma missa em Lisboa e atravessou depois a região ribatejana rumo à Cova de Iria. Os ateus, anarquistas, jacobinos e carbonários de outros tempos, que ajudaram a derrubar a monarquia e contribuíram para o nascimento da República e da GNR, devem andar a dar voltas nos túmulos por causa desta faceta papa-hóstias da nossa Guarda...
Pelo que li, a iniciativa já vai na terceira edição, o que indicia que as preces e promessas da GNR têm tido bom acolhimento por parte de Nossa Senhora de Fátima. Talvez os enfermeiros, professores, guardas prisionais e outras classes profissionais protestantes devessem seguir o exemplo dos garbosos militares da Guarda e tentar recorrer a Nossa Senhora como mediadora para os seus problemas laborais.
Os presidentes de câmara andam muito aborrecidos, e com razão, porque a Comissão Nacional de Eleições avisou que não podem publicitar determinadas realizações ou eventos nos três meses antes das eleições europeias, porque tal pode ser considerado propaganda política a favor de determinada candidatura.
Sinceramente, tenho dificuldade em perceber como é que o anúncio de uma inauguração de um fontanário por um presidente socialista ou centrista ou de um parque infantil por um autarca social-democrata ou comunista podem influenciar o povo a votar nas listas desses partidos para o Parlamento Europeu, eleições essas, aliás, a que os portugueses não ligam peva.
Mas ainda me custa mais entender que ao mesmo tempo em que as autarquias são inibidas de fazer inaugurações ou publicitar obras ou outras medidas com interesse manifesto para as respectivas populações tenhamos em digressão pelo país um Governo em permanente propaganda e a anunciar medidas, como a da redução dos preços dos passes dos transportes públicos em Lisboa e Porto (e depois em todo o país) que, essas sim, podem ter reflexo no momento de pôr o voto na urna. E, diga-se em abono da verdade, como faz este Governo fizeram os anteriores. Já escrevia o visionário romancista George Orwell que todos os animais são iguais, mas há uns que são mais iguais que outros.
A oferta de bilhetes para touradas pela Câmara de Santarém deu pano para mangas nas caixas de comentários às notícias sobre o assunto. Mais do que o maniqueísmo em torno do assunto, é confrangedora a incapacidade de muito comentador em distinguir uma notícia de um comentário, um título de uma notícia, ou expressar uma opinião sem rotular com vernáculo os que pensam de forma diferente. Se há conclusão que se pode retirar dessa e de outras discussões acesas nas redes sociais é que o grau de iliteracia funcional e o espírito trauliteiro de muitos portugueses estará ao nível dos tempos da Santa Inquisição, quando a turba histérica aplaudia os autos de fé e se inebriava com o cheiro a churrasco humano.
Saudações laicas do
Serafim das Neves
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