
Tigres de Almeirim na primeira não pode ser um sonho de duas ou três pessoas
José Salvador passa de presidente a líder da comissão administrativa à espera de uma vaga de apoio
Na mesma altura em que o Hóquei Clube “Os Tigres” de Almeirim garante a subida à terceira divisão nacional, pela terceira vez, o presidente não se recandidata nas eleições. Mas para o clube não ficar moribundo aceitou liderar uma comissão administrativa por um prazo máximo de seis meses, à espera de alguém que queira seguir o trabalho de estabilização financeira do clube e de resultados desportivos. José Salvador tem esperança, mas não está convencido que apareça uma nova direcção. E se isso acontecer espera pelo menos que apareça gente para ajudar um clube que é o que mais público garante nos jogos. Nesta entrevista, José Salvador reconhece que não se tem trabalhado a formação como se devia, que é preciso aproximar do clube os sócios mais antigos e os ex-jogadores do concelho. O dirigente diz que é imperioso dar a volta à estrutura criar um director desportivo e que a cidade tem de pensar até que ponto quer uma equipa na primeira divisão, com a visibilidade que isso representa.
O início do mandato começou com uma direcção fechada. O que mudou para começar a comunicar?
A necessidade de fechar a comunicação foi uma estratégia e foi imperiosa perante tantas dificuldades. Tínhamos que sanear financeiramente o clube e isso podia não ser bem entendido pelos sócios, tal como não foi. O alarido prejudicava as negociações das dívidas. No último ano já foi possível uma abertura e o sucesso desportivo a isso ajudou.
Mas a herança era assim tão má?
Não me fica bem falar do passado, mas havia situações complicadas para resolver, com processos judiciais e penhoras. Não foi uma situação exclusiva da anterior direcção, que já tinha herdado um passado pesadíssimo.
E agora a situação financeira está resolvida?
Já não temos penhoras. Se não tivéssemos equacionado a subida de divisão neste último ano de mandato já tínhamos as dívidas todas pagas. Algumas dívidas que estão a ser pagas terminam em Novembro deste ano. A dívida de um clube destes não é estanque, porque diariamente há coisas a pagar.
Consegue o feito de subir à primeira e depois não se recandidata. Prefere sair pela porta grande?
Se fosse para sair em grande não tinha aceitado ficar a liderar a comissão administrativa até novas eleições. A sustentabilidade do projecto é o mais importante. Vamos para a primeira divisão, mas isso não pode ser o sonho de duas ou três pessoas. Tem de haver mais gente envolvida. O concelho de Almeirim, o distrito de Santarém, gosta de hóquei em patins, mas isso tem de ser demonstrado com apoio.
Isso é uma crítica à população, às entidades?
Não! É uma chamada de atenção, porque se queremos evitar andar sempre a subir e a descer de divisão precisamos de ajuda e essa ajuda não é só financeira. Precisamos de gente para os órgãos sociais, por exemplo.
Se nos seis meses de vigência da comissão administrativa não aparecer uma lista vai manter a sua posição de sair?
O clube não vai ficar órfão, mas não pode andar a ser gerido por uma comissão administrativa. Se não aparecer ninguém, será marcada nova assembleia e continuaremos, mas não é esse cenário que nos interessa. As pessoas têm de se juntar, seja em outra lista, seja juntar-se a nós. Acabámos o mandato com cinco dos nove elementos da direcção. Numa estrutura destas o dobro das pessoas é pouco.
Porque é tão difícil arranjar dirigentes?
Porque temos de abdicar da nossa vida pessoal, familiar. Foi isso que também me fez parar. Se o trabalho for dividido por muitos não dói tanto. Os anteriores presidentes acabaram por ficar isolados. O Hóquei Clube Os Tigres é um gigante ainda adormecido e não podemos correr o risco de os meus filhos e dos outros terem de treinar a muitos quilómetros de distância, noutros clubes, quando temos aqui condições.
Porque é que não conseguem manter-se na primeira divisão mais que uma época?
Nas zonas à volta de Almeirim não há quem nos forneça jogadores com qualidade. Para nos mantermos na primeira precisamos de ir buscar jogadores às zonas de Tomar, Turquel e Lisboa, o que implica custos elevadíssimos em transportes. Para nos aguentarmos na primeira temos de ter quase o dobro do orçamento, que é actualmente de cerca de setenta mil euros anuais. Nos moldes actuais ou se entra em loucuras e faz-se uma equipa que não é sustentável, e isso está fora de questão, ou temos jogadores mais baratos, que não garantem a manutenção.
O orçamento do clube conseguiu comportar o objectivo da subida?
Os Tigres chegam à primeira divisão com o orçamento mais baixo relativamente ao plantel em comparação com as outras duas subidas anteriores. A cidade e o clube precisa de pensar até que ponto quer ter uma equipa na primeira divisão.
Esta modalidade é a que mobiliza mais público nos jogos em casa. Isso tem sido reconhecido?
Há um apoio, mas que não é suficiente para uma primeira divisão. Este ano houve uma pequena actualização do subsídio da câmara. Não podemos ser subsidio-dependentes, mas as pessoas exigem-nos qualidade, que não é possível com a situação actual.
Acabaram com os juniores. É uma situação para manter?
Quando chegámos, há três anos, tínhamos uma equipa esfrangalhada. Não podemos ter juniores da casa só para dizer que temos. A ideia é de entre os jogadores mais velhos das camadas jovens começar a injectar alguns na equipa sénior.
Porque é que tem sido difícil captar jogadores para as camadas jovens?
Por uma clara falha nossa. Com uma estrutura pequena concentramo-nos muito tempo nos seniores e abandonamos a captação de miúdos. Mas também partimos em desvantagem em relação a outras modalidades. O hóquei em patins só pode ser praticado em pavilhões com determinadas características. O custo do material também é grande e tem de ser suavizado.
Almeirim tem pavilhões que foram feitos sem pensar no hóquei em patins.
Temos que perceber que o Hóquei Clube Os Tigres teve um passado de abre e fecha, com períodos em que esteve sem actividade. Isso dá uma imagem de um projecto pouco sério, o que se pagou com o desinvestimento na modalidade. Neste momento só o Pavilhão Alfredo Bento Calado tem condições para jogos. É também por isso que não vou deixar o clube morrer.
Têm dificuldades em arranjar tempos no pavilhão para treinos?
É um problema com que nos debatemos todos os anos e que nos dá um sinal de que não podemos crescer. Não posso pensar que um dia não posso criar uma equipa por não ter espaço para treinar.
Têm de preparar a próxima época, como é que vai ser?
O caminho tem de passar por criar uma equipa autónoma da direcção para acompanhar os seniores. Temos o problema das eleições serem em Maio, o que é errado. Neste momento oitenta por cento dos planteis da primeira divisão estão fechados e nós iniciámos agora os contactos.
Se entretanto aparecer uma direcção, esta vai ter de se sujeitar ao que a comissão administrativa já fez.
Sim é verdade. Mas acho que não vai aparecer alguém para assumir o clube. Se me vou recandidatar, ainda não sei, porque preciso perceber o que as pessoas querem. O hóquei precisa de dar o salto. Não queremos ser o bobo da corte da primeira divisão. As coisas têm de ser feitas com responsabilidade. Se for buscar um jogador com mais de 23 anos tenho de pagar logo à partida dois mil euros de transferência. Vai ter de ser criada a figura do director desportivo. Não posso ainda garantir que o treinador vai continuar a ser o André Luís.
E em relação à patinagem artística?
O clube não pode ser dois clubes, o do hóquei e o da patinagem. As pessoas têm de se envolver num único símbolo. É preciso mudar este cenário.
O que é que tem sido feito para aproximar antigos jogadores do concelho e os sócios mais antigos?
Olho para as fotos antigas que temos na sede e vejo muitos antigos jogadores com pouca vontade de voltarem. Fui buscar um para treinador e houve outro que esteve na minha direcção e que saiu. Mas também não temos uma sede própria em condições para os nossos sócios se juntarem.

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