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A angústia de não encontrar nas farmácias o medicamento necessário
Joaquim Guilhermino

A angústia de não encontrar nas farmácias o medicamento necessário

Muitos utentes do distrito de Santarém têm dificuldade ou não conseguem encontrar nas farmácias a medicação prescrita pelos médicos. Santarém é o segundo distrito do país com maior percentagem de farmácias em processo de insolvência ou penhora.

Edição de 02.10.2019 | Sociedade

“Vivo com medo de morrer por não tomar o medicamento de que preciso, porque desapareceu da farmácia”. É com esta ansiedade que, aos 81 anos, Maria de Lurdes Mimoso vive diariamente. Alguns dos medicamentos que toma estão há vários meses em falta não só na farmácia que frequenta há anos, como em todas as da cidade de Santarém, no distrito e até a nível nacional.
Os dados da Associação Nacional de Farmácias (ANF) são claros e no que toca ao distrito de Santarém não são animadores. Em 2018, 55,36% dos utentes enfrentaram algum tipo de dificuldade no acesso a medicamentos. Destes, 21,61% recorreram a uma nova consulta para obter o medicamento disponível e 6,55% tiveram mesmo de suspender o tratamento. Os resultados do distrito surgem acima da média nacional, que fica nos 52,20%.
No caso de Maria de Lurdes Mimoso está em causa o cloreto de potássio e o carbonato de cálcio, medicamentos que toma há anos, porque o seu organismo não produz autonomamente esses dois componentes. A medicação serve para compensar a lacuna. Se deixar de tomar os medicamentos, principalmente o cloreto de potássio, corre o risco de os seus órgãos vitais deixarem de funcionar.
Ambos os medicamentos praticamente desapareceram das farmácias. “O meu marido correu todas as farmácias na cidade. Em Santarém não havia cloreto de potássio em lado nenhum. Foi até à Chamusca, Golegã, Torres Novas e Lisboa e lá conseguiu reunir umas cinco embalagens que tenho guardadas. Mas de cada vez que vou buscar uma, penso como e onde vou conseguir arranjar mais caixas”, conta.
A professora aposentada lembra o primeiro episódio que teve que a levou para o hospital. “Estava em casa e de um momento para o outro comecei a não conseguir mexer-me e falar. Sentia os músculos a paralisar e nem um dedo conseguia mexer. É uma sensação horrível. Parece que vamos começar a paralisar primeiro por fora e depois por dentro, até morrer”, explicou.
Foi nessa altura que começou a tomar o cloreto de potássio que compensa os níveis necessários no organismo deste mineral. É um medicamento que tem que tomar para o resto da vida mas que só tem para três meses. “Não compreendo como conseguem retirar este medicamento que é tomado por tanta gente com problemas cardíacos e que pode em alguns casos levar à morte se o deixarmos de tomar”, reitera Maria de Lurdes Mimoso.
A última embalagem de carbonato de cálcio comprada ainda numa farmácia de Santarém já terminou há mais de um mês. Através da farmácia que frequenta, Maria de Lurdes conseguiu um medicamento equivalente, mas teve que vir de Espanha.

Medicamento para a diabetes esgotado
Joaquim Guilhermino sofre de diabetes e há cerca de 15 anos toma Glucovance, um medicamento que também não está a ser fácil de encontrar nas prateleiras das farmácias portuguesas. É indicado como tratamento de primeira linha em adultos com diabetes tipo 2. Já procurou por várias farmácias e tem-lhe sido dito sempre o mesmo: está esgotado há vários meses. O fotógrafo reformado, de 75 anos, já só tem uma caixa e quase que se dá por derrotado. “Pode acontecer-me três coisas: ficar melhor, ficar pior ou morrer”. Segundo refere, não há nenhum medicamento que possa substituir o que toma há anos.

As explicações do INFARMED
O MIRANTE questionou o INFARMED, que esclarece que nos casos em que existe ruptura “disponibiliza os medicamentos através de autorizações de utilização excepcionais quando, comprovadamente, não houver alternativa terapêutica”. No entanto, há casos em que esta situação não acontece e há doentes que como Maria de Lurdes Mimoso, têm que arranjar soluções como adquirir o medicamento no estrangeiro.
O INFARMED diz ter conhecimento de situações de indisponibilidade de medicamentos, explicando que quando se trata de uma ruptura de stock por parte das empresas farmacêuticas, este fenómeno resulta de problemas ao nível do fabrico, quer por dificuldade de acesso às substâncias activas quer pela deslocalização de fábricas da Europa para outros países ou ainda por questões relacionadas com preços.

Maria de Lurdes Mimoso

Insolvência de farmácias agrava problema

O MIRANTE contactou o autor do estudo divulgado recentemente pela ANF que veio de novo trazer para a esfera pública o tema da falta de medicamentos nas farmácias portuguesas, António Teixeira Rodrigues explicou que as falhas de abastecimento são um problema com várias causas. Desde problemas no fabrico do medicamento e na cadeia de distribuição ou por motivos relacionados com a perda de valor do mercado nacional no contexto internacional. “O baixo preço dos medicamentos praticados em Portugal face a outros países funciona como um desincentivo aos fabricantes para colocarem maior stock nas farmácias portuguesas”, explica.
O Centro de Estudos e Avaliação em Saúde (CEFAR), onde foi elaborado o estudo, realça ainda que o problema da insustentabilidade do sector das farmácias é outro dos motivos, e os números de insolvências e penhoras nos últimos anos são reflexo disso. Neste panorama, o distrito de Santarém também sobressai pelos piores motivos: é o segundo a nível nacional com maior percentagem de farmácias em processo de insolvência ou penhora, segundo dados do CEFAR.
Em Março deste ano o distrito de Santarém tinha 45 farmácias em risco de encerramento, o que representa 30,6% das farmácias nesta situação. Na altura, 19 enfrentavam processos de insolvência e 26 apresentavam processos de penhora. Os dados foram na altura revelados por Cleto Duarte, presidente da ANF, durante uma visita ao distrito de Santarém.
O MIRANTE solicitou à ANF números actualizados, que não foram disponibilizados até ao fecho desta edição.

A angústia de não encontrar nas farmácias o medicamento necessário

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