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“Era incapaz de viver sabendo que podia ter evitado uma morte”
Mário Gomes participou numa recolha solidária há perto de 10 anos e não sabia que integrava a base de dados de dadores desde essa altura

“Era incapaz de viver sabendo que podia ter evitado uma morte”

Mário Gomes, natural de Pernes, ajudou a salvar uma vida com a doação de medula óssea. Faz parte dos 400 mil portugueses que são dadores voluntários, e orgulha-se de não não pertencer aos 80 que, só no ano passado, recusaram doar quando chamados a ajudar um doente em risco de vida.

Edição de 30.10.2019 | Sociedade

“A partir do momento em que sabemos que podemos salvar uma vida a nossa própria vida muda, não há como voltar atrás”. As palavras são de Mário Gomes, 33 anos, que há pouco mais de uma semana doou medula óssea a uma mulher da sua idade com uma leucemia terminal.
Quando há cerca de dois meses lhe telefonaram a dar a notícia de que era dador compatível e que podia salvar uma vida, Mário ficou incrédulo. Já não se lembrava que em 2010 tinha participado numa recolha solidária de medula óssea numa campanha em Santarém que pretendia encontrar um dador compatível com um jovem da região. Deu sangue e ficou automaticamente integrado na base de dados do Centro Nacional de Dadores de Medula Óssea, Estaminais ou de Sangue do Cordão (CEDACE).
Depois do primeiro contacto foram-lhe solicitados vários exames para averiguar se a compatibilidade se mantinha. Os exames confirmaram uma compatibilidade em taxa máxima. Teve início o processo de preparação para a doação que consiste na aplicação de injecções de 12 em 12 horas para provocar uma infecção que mobiliza as células da medula.
Mário, a viver em Almeirim, é natural de Chã, Pernes (Santarém), e é ali que tem um negócio de carnes. Habituado a ver sangue não teve qualquer problema em ser ele a aplicar as injecções a si mesmo. Fez nove tomas durante quatro dias. Esse medicamento, que normalmente não causa mais do que uma simples indisposição, provocou-lhe uma reacção adversa, com dores fortes mas nunca pensou interromper o processo, pois estava decidido a ajudar aquela mulher que nem conhece.
Depois de ler nas notícias que há dadores compatíveis que se negam quando o processo já está em andamento não quis fazer parte dessas estatísticas. Mário tem um filho de cinco anos e confessa que nem quer imaginar o que seria se ele passasse por uma situação dessas.
Apesar de ainda se sentir um pouco fragilizado o dador repetiria todo o processo e incentiva amigos e conhecidos a doar medula óssea. As idas ao Instituto Português de Oncologia (IPO) de Lisboa não o deixaram indiferente. Sentiu nos olhares e nos abraços que recebeu a gratidão imensa que quem está doente sente ao saber que ali está alguém que ajuda a salvar vidas. “Não me sinto um super-homem, mas era incapaz de viver sabendo que podia ter evitado uma morte sem o ter feito”, remata.

Dadores desistem quando são chamados a ajudar
No ano passado 80 pessoas inscritas no CEDACE recusaram doar quando foram chamadas a fazê-lo por serem compatíveis com um doente em risco de vida. Apesar de inferiores às de 2017 as desistências continuam expressivas. De acordo com dados do Instituto Português do Sangue e da Transplantação, entre os 1.424 pedidos de activação feitos em 2018, 432 foram interrompidos - 220 por questões de saúde, 81 por contactos desactualizados, 80 por desistência, 27 porque os dadores foram transferidos para outro registo e 24 porque emigraram.

Dadores entre os 18 e os 45 anos

Os transplantes de medula óssea são a opção mais frequente no tratamento de linfomas, leucemias e anemias graves. O Centro Nacional de Dadores de Células de Medula Óssea, Estaminais ou de Sangue do Cordão foi criado em 1995 com o objectivo de responder a muitas situações de doentes que tinham indicação para transplante de medula óssea e não tinham um dador familiar compatível.
Com 400 mil dadores voluntários de medula óssea (61% mulheres e 39% homens), Portugal ocupa actualmente o terceiro lugar dentro dos países europeus com maior número de potenciais dadores. Qualquer pessoa saudável entre os 18 e os 45 anos pode ser dadora.

“Era incapaz de viver sabendo que podia ter evitado uma morte”

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