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A filosofia perde importância num mundo de informação feita para não pensarmos
Carlos Varverde

A filosofia perde importância num mundo de informação feita para não pensarmos

Carlos Valverde e Pedro Vitória são professores de filosofia há várias décadas. A filosofia, por ensinar a pensar de forma crítica e autónoma, não é uma disciplina fácil. E muito menos num tempo em que parar para pensar é cada vez mais difícil, devido a apelos constantes à nossa atenção e ao fornecimento em catadupa de informação tão atractiva como supérflua.

Edição de 04.12.2019 | Sociedade
Pedro Vitória

Para Carlos Valverde, de 60 anos, professor de filosofia há mais de 30, actualmente na Escola Secundária Marquesa de Alorna, em Almeirim, a filosofia é uma disciplina que pode ser ensinada em qualquer idade, dependendo do nível de aprofundamento ou abordagem que se faz.
“No ensino secundário, onde a disciplina está integrada curricularmente as idades são de uma fase de transição (15/16 anos), mas quando os assuntos são devidamente enquadrados os alunos conseguem percebê-los”, garante o professor, acrescentando que em Almeirim já houve uma experiência de introduzir a filosofia para crianças, mas a avaliação feita não foi a mais positiva e por isso recuou-se.
Para o seu colega Pedro Vitória, de 46 anos, que ensina filosofia há 20, os últimos dois anos na Escola Secundária de Forte da Casa, em Vila Franca de Xira, conceitos como democracia, ética e lógica são difíceis de explicar aos mais pequenos, mas também aos mais velhos, porque são conceitos construídos, que estão em constante mutação e que necessitam de um trabalho contínuo.
O doente acrescenta que hoje se fala em filosofia para crianças, mas que esta não tem as mesmas características que a filosofia para adolescentes. “De acordo com as teorias da psicologia os alunos nesta faixa etária já têm plena capacidade de fazer pensamento abstracto”, refere, realçando, no entanto, que isto não invalida que os professores sintam dificuldade com alguns alunos que, embora adolescentes, são ainda muito infantis e não possuem os instrumentos cognitivos para um pensamento formal que se exige no estudo da filosofia.
A mesma dificuldade é sentida, diz Pedro Vitória, na Matemática. “Na filosofia não se verificam tantos casos de insucesso como na matemática, porque a disciplina tem vindo a ser desvalorizada e acaba por se cair no facilitismo. Por vezes torna-se tão fácil que perde o seu sentido”, lamenta.
Cada vez é mais difícil parar para pensar
Para o professor da escola de Almeirim, Carlos Valverde, é cada vez mais difícil parar para pensar, na medida em que os apelos e os “soundbytes” da informação e de tudo o que envolve a actualidade se tornam mais atractivos e acabam por ocupar a mente em actividades por vezes “supérfluas”.
Pedro Vitória reforça a importância da filosofia como instrumento de pensamento critico e autónomo dos alunos. Para o professor de Vila Franca de Xira é importante perceber o que sabemos, mas é mais importante termos noção do que não sabemos. Pedro Vitória entende a filosofia como uma disciplina diferente das outras, “os alunos ao início estranham, por vezes resistem, fruto da nossa sociedade que valoriza muito a técnica, os aspectos práticos, o ‘isso serve para quê?’, ou ‘como é que posso ganhar dinheiro com isso?’”
Numa sociedade cada vez mais digital, Pedro Vitória acredita que a filosofia não tem que ficar fora deste espaço, e atira como exemplo o facto de os computadores utilizarem uma linguagem criada por um filósofo, o alemão Liebniz (sistema binário). “A filosofia está em quase todo o lado, mas por vezes naquilo que está demasiado presente passa-nos despercebido”, remata.

Dia Mundial da Filosofia celebrado a 21 de Novembro

Na secundária de Forte da Casa, o Dia Mundial da Filosofia foi assinalado com uma exposição de fotografias de autor, projectadas na biblioteca da escola e posteriormente comentadas pelos alunos.
Em Almeirim, este ano não houve actividades agendadas para assinalar o dia. Segundo Carlos Valverde, optou-se por utilizar as temáticas definidas nacional e internacionalmente, pelas associações de professores de filosofia, e enquadrá-las curricularmente ao longo do ano lectivo.
Este ano o tema é liberdade de expressão e está a ser aproveitado pela Escola Marquesa de Alorna para debater questões como a violência doméstica, a violência no namoro, ou a igualdade de género.

A filosofia perde importância num mundo de informação feita para não pensarmos

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