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26/05/2017
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“A Feira da Agricultura tornou-se uma feira de shows”
David Dias é administrador da Ecoveg, uma empresa grossista de Almeirim que vende produtos para a agricultura. O engenheiro agrónomo diz que a Feira de Agricultura em Santarém, cidade onde reside, tornou-se uma feira de festas.
Edição de 02.03.2017 | Identidade Profissional

David Dias, administrador da Ecoveg, empresa grossista de produtos para a agricultura sediada em Almeirim, cresceu e estudou no Cartaxo e actualmente reside em Santarém. A família é de origem angolana e David tem dupla nacionalidade mas para ele Angola só de passagem e para fazer negócios. Quem está quase sempre nesse país africano é o seu pai, que fundou a empresa, e o seu irmão, 18 meses mais novo.
David Dias estudou Agronomia na Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Castelo Branco. Questionado sobre o porquê de não ter tirado em Santarém, onde também existe uma escola agrária, David responde a sorrir que era para “não ficar em casa”.
Desde criança que está habituado a lidar com produtos para a agricultura e a trabalhar na empresa. “Em miúdo acompanhava o meu pai que também é formado na área. Visitávamos os clientes e via como o meu pai fazia. Por isso hoje tenho uma certa facilidade em falar dos produtos, das culturas”. A coisa que mais adorava era ir para a empresa durante as férias, mas hoje já não é assim “porque vejo isto como trabalho”.
A Ecoveg é uma empresa familiar com cerca de 20 anos. Não produz nada, só importa produtos que revende. Representa várias marcas internacionais. Vende adubos granulados de fundo e cobertura, solúveis, matérias orgânicas, substratos, bioestimulantes, correctores de carência, plásticos para a agricultura entre outros. “Estamos mais ligados à nutrição”, explica o engenheiro agrónomo.
A empresa costuma participar nas várias feiras pelo país fora. “Fazemos a Expo-Jardim e este ano vamos voltar à Ovibeja e à Feira Nacional de Agricultura. Fizemos várias Feiras da Agricultura em Santarém e antigamente estávamos sempre presentes. Deixámos de aparecer desde que a feira se tornou uma feira de festas e não de agricultura. Continua a ser de festa. Vêem-se algumas máquinas mas não se vêem produtos. Deixaram de aparecer porque as feiras internacionais são bastante mais interessantes para o negócio em si. Este ano decidimos voltar mas só mesmo para estar presentes, não tanto pelo negócio”.
O empresário lembra que “a altura da Feira da Agricultura é quando os agricultores já estão a finalizar as suas campanhas, quando só falta mesmo fazer a colheita. Por isso, diz, “vamos estar só mesmo pela presença, porque quem não aparece esquece”.
David Dias não sugere a alteração da data. “O problema é que se tornou uma feira demasiado comercial. O CNEMA tem de ganhar dinheiro e a única forma de o fazer é na bilheteira. A forma de trazer clientes é com shows e os profissionais vão para ali à espera que apareçam clientes para o seu negócio mas o público que aparece é mais tarde e não é para comprar produtos para a agricultura. O profissional não se vai dar ao trabalho de ir ali ver produtos, que são poucos. O que se vê é EDP, bancos, fogões, vassouras, coisas que não têm nada a ver com agricultura”, diz, acrescentando que “a melhor feira para se trabalhar neste momento é a Agroglobal”.
Quanto à actual situação do país, o empresário vai contra a corrente e diz não notar nenhuma recuperação na economia. “Isto está bem mais difícil. Notou-se uma grande recuperação de 2013 a 2015 que foi sempre a subir. Em 2016 foi um ano de manutenção e para algumas empresas foi mesmo mau porque desceram as suas vendas, ou seja está a piorar”. O grande problema são as indústrias que “esmifram” os agricultores porque o preço deste tipo de produtos “nem tem subido muito, acredito até que têm descido”. “Os agricultores fartam-se de trabalhar e não vêem resultados e há alguns que desistem mesmo”, afirma.
David Dias refere que o sector primário tem tudo para resultar mas continua a ser mal gerido e mal organizado pelos responsáveis políticos. “Também não sou da opinião de que temos de dar mais subsídios, porque senão não saímos disto. As pessoas precisam é de confiança e saber que podem produzir porque o produto vai ter escoamento”, explica.
Para isso acontecer o engenheiro diz que os agricultores têm de se juntar e organizar para terem força. “Já se tentou fazer isso com as cooperativas mas não resultou muito bem, ao contrário de Espanha em que as cooperativas conseguem ter peso e são super importantes. Conseguem negociar preços porque têm escala e conseguem escoar o produto”.

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