O concelho da Chamusca precisa de ser governado por pessoas com princípios e valores
Tiago Prestes foi vereador na oposição na Câmara Municipal da Chamusca e adoptou sempre uma postura construtiva e de diálogo. Nesta entrevista aponta o dedo à falta de estratégia que tem existido na gestão da autarquia e ao facto do concelho estar cada vez mais isolado.
Fala dos problemas principais, como a ponte da Chamusca, as intermináveis obras das piscinas, o fecho da adega cooperativa, a má gestão do património religioso da vila, entre outros. Licenciado em Gestão de Empresas pelo ISLA Santarém, Tiago Prestes trabalha com a sua esposa Rita na Sociedade Agrícola Vale Formoso. Foi cabo do Grupo de Forcados do Aposento da Chamusca durante três décadas e tem nos seus pais as grandes referências da sua vida. No final desta entrevista a O MIRANTE, quando questionado sobre se teve surpresas na política, Tiago Prestes conta um episódio negativo com o actual vereador e ex-presidente da Junta da Chamusca, Rui Martinho.
Por que foi parar à política quando tem uma vida estável? Essa é uma pergunta gira, porque realmente o mundo da política é o contrário da minha forma de estar na vida. Começou tudo com a Dona Nani, Maria Manuel Cid, ex-vereadora do CDS na Chamusca. Um dia falou comigo, em casa, já doente, e pediu por tudo para não deixar cair o CDS no concelho. E tenho tentado cumprir essa promessa, fazendo política de uma forma positiva, nunca apontando o dedo a ninguém.
Aceitou ser candidato à câmara pela coligação PSD/CDS. Arrepende-se? Não, mas confesso que não estava à espera. A verdade é que aceitei porque sentia que o concelho estava a perder qualidades, ia perdendo gente e serviços, estando cada vez mais isolado. Sempre representei o concelho enquanto cabo do Grupo de Forcados do Aposento da Chamusca e senti que o devia fazer a nível político também. Aprendi muito como vereador na oposição. Estive perto das pessoas e dos problemas. Temos de pensar este concelho de forma muito diferente daquela que tem sido pensada. As opções estratégicas tomadas pelo anterior executivo não foram as correctas, do meu ponto de vista. Espero que o executivo actual tenha coragem de meter as mãos na massa e fazer o que precisa de ser feito. O desenvolvimento da Chamusca não pode continuar a depender de requalificações e da construção de novos edifícios. Precisamos de políticos que sintam a importância da missão de servir as pessoas.
Quais são os principais problemas da Chamusca? Um dos principais é o isolamento e a falta de capacidade de chegar aos gabinetes que decidem, nomeadamente em Lisboa. Temos de sair do nosso quintal. A Chamusca vive um grave problema de injustiça social, nomeadamente em relação às acessibilidades. Não há habitação disponível e a saúde é aquilo que já sabemos. Se um presidente da câmara não tiver a coragem de ser arrojado e de fazer pressão em quem decide, não está lá a fazer nada. Tivemos um homem na gestão da nossa autarquia que foi isso tudo, o Sérgio Carrinho.
Alguma vez vai ser resolvido o problema da Ponte da Chamusca? Espero bem que sim e que o actual Governo cumpra essa promessa. Acredito que, até 2034, vamos ter a situação resolvida, pelo menos são essas as previsões. Por razões profissionais tenho de utilizar a ponte todos os dias. Chego a perder mais de uma hora de viagem para fazer uma dúzia de quilómetros. Na minha situação há centenas de pessoas. É impensável, parece que vivemos num país de terceiro mundo.
Uma palavra para definir as obras das piscinas da Chamusca? Incompreensível, incompreensível, incompreensível. Tenho de a dizer três vezes. Assim como é incompreensível estarmos a deixar fechar a maioria dos serviços públicos. A requalificação urbana da vila foi um disparate enorme, acabou por deixar o nosso comércio local a definhar ainda mais. Nem vou pela questão económica, aquilo que se investiu e onde se podia ter investido. Volto a dizer, faz falta uma estratégia bem delineada. A Chamusca tem sido gerida como uma loja de aldeia.
O arquivo municipal é um exemplo dessa falta de estratégia? É uma obra megalómana, completamente superdimensionada e que custou milhões de euros. Ainda precisamos de saber para o que vai ser utilizada. Acho bem que se crie condições para colocar o arquivo municipal, mas não seria mais benéfico utilizar parte da verba para requalificar, por exemplo, a zona ribeirinha da Chamusca? O Tejo está completamente ao abandono e pelos vistos vai continuar. Quem sofre continua a ser a nossa comunidade.
As igrejas também estão ao abandono... Todas. O património religioso da Chamusca é riquíssimo, mas está desprezado. Temos igrejas que guardam peças históricas, como a da Senhora do Pranto, e que estão fechadas. Há falta de coordenação entre o município e as outras entidades. O município pode não ser o único responsável pelas situações, mas tem certamente parte da culpa. Não existe autocrítica para ver que as coisas não estão bem e que é preciso melhorá-las. A situação das IPSS é um bom exemplo disso.
Há um descartar de responsabilidades? O presidente da câmara tem muita força política para resolver os problemas. Como é que um autarca pode colocar em risco o funcionamento de uma IPSS só porque a sua gestão é privada? As pessoas que lá estão que morram e desapareçam. Isto não se faz em lado nenhum. As câmaras têm de estar ao serviço da comunidade.
De quem é a culpa do Clube Agrícola estar fechado? O Clube Agrícola pertence aos sócios, tem uma associação, da qual eu também sou sócio. A verdade é que nunca mais paguei quotas. Tem sido uma associação mal gerida. Os autarcas têm de perceber o que se está a passar. Há uma falta de diálogo gritante, não há um rumo. Aquele é mais um património histórico. Se for necessária uma intervenção municipal, porque não fazê-la para preservar aquele espaço e voltar a colocá-lo ao serviço da comunidade?
O Tiago teve responsabilidades no fecho da Adega Cooperativa da Chamusca? Essa é uma pergunta muito pertinente porque já ouvi uns zunzuns de que um dos responsáveis pelo fecho da adega fui eu. Eu explico: houve a implementação de um projecto de 750 mil euros para uma nova produção de vinhos, com nova roupagem. A adega fechou porque deixou de haver produção. A maior parte dos produtores acabaram com as vinhas. Poucos foram os que ficaram. Um deles foi o senhor António Guita, um dos grandes viticultores do nosso concelho. Quem é que sustentava a Adega para além de três ou quatro produtores? Foi tomada a decisão de fechar em assembleia geral e confesso que também fiquei muito surpreendido. Naquela altura a adega tinha o projecto concluído. Tinha tudo feito. A adega acabou porque deixou de ter vinho.
Os exemplos na família e a vida profissional
Tem orgulho nas suas origens? Na minha família encontrei valores intelectuais, morais e sociais que me permitem ser o que sou hoje. Sou fruto da educação que tive e por isso não podia ter mais orgulho das minhas origens. Para atingir determinados patamares, às vezes é mais fácil enveredar pelo caminho mais fácil, mas não foi isso que os meus pais me ensinaram. Ensinaram-me que a melhor opção é ir sempre pelo caminho mais digno. É isso que tento ensinar às minhas filhas.
Quem é o seu maior exemplo? O meu pai sempre nos incutiu o espírito de trabalho. Somos quatro irmãos. Ele entendia que o grande objectivo dele, enquanto pai, era dar aos filhos uma enxada para aprenderem a trabalhar. Isto é, dar um curso. O meu pai trabalhou até à última gota da vida dele e a sua postura fez com que eu quisesse marcar a diferença, sobretudo nos comportamentos. Sou incapaz de me desligar destes princípios por causa de interesses.
A sua mãe também é uma referência… Sem dúvida. A minha mãe fazia aquilo que gostava, que era ensinar e também aprender. Já no fim de casar e ter filhos, ainda estudou psicologia. Chegou a ser chefe dos escuteiros em Coruche, terra onde nasceu. O facto de ter gosto em dar sem necessidade de receber também me influenciou muito. Deu explicações a centenas de miúdos e sabia as notas todas deles. O mais bonito na maneira de ser dela era que, quando as coisas corriam menos bem, chamava-nos e tinha sempre palavras positivas e de incentivo.
É um homem do campo? Com muito orgulho. Gosto de estar em liberdade, embora tenha de fazer trabalho de escritório. Trabalhar no sector agrícola é sujeitarmo-nos ao calor, frio e chuva. Mas prefiro a estar agarrado a um computador. A empresa é familiar e por isso entendemo-nos bem.
É fácil separar o trabalho da família? Não é fácil. Muitas vezes estamos em passeio e damos por nós, eu e a Rita (esposa), a falar de trabalho. Mas quem trabalha numa empresa familiar tem de estar sempre ligado.
A agricultura deixou de ser vista como um sector primário? É preocupante a falta de apoios. Trabalhar na área agrícola é quase sempre estar numa posição em que se produz sem saber o que se vai ganhar com essa produção. Isso é, inclusive, um factor de desmotivação. Na nossa empresa, a Sociedade Agrícola do Vale Formoso, gostamos de produzir bem. Acho que devia haver mais apoios para quem produz riqueza. Há uma visão pouco alargada porque a maior parte dos responsáveis das entidades que nos governam não saem dos gabinetes.
Tiago Prestes acusa vereador Rui Martinho de tentar fazer negócios com o município da Chamusca
Tiago Prestes acusa Rui Martinho de o ter aliciado com várias ofertas, entre elas financiamento para a sua associação, e o cargo de director geral na RSTJ, tudo para que se afastasse da candidatura ao município da Chamusca pelo PSD.
Teve muitas surpresas na política? Não tive muitas, mas tive uma que me vai marcar para sempre pela negativa. Foi nestas eleições e envolve o actual vereador Rui Martinho, que na altura ainda era presidente da União de Freguesias da Chamusca e Pinheiro Grande. Quando temos uma ideia sobre uma pessoa e depois descobrimos que ela é exactamente o contrário fica-se surpreendido.
O que se passou? O senhor Rui Martinho veio aqui a minha casa, em Outubro de 2024, um ano antes das eleições, dizer-me que se iria candidatar por um movimento independente e que contava com o apoio do PSD. Desejei-lhe as maiores sortes e ele ofereceu-me alguns cargos caso vencesse as eleições. Queria que fosse presidente de uma comissão de honra que ele viria a montar, que assumisse o cargo de director-geral da empresa intermunicipal RSTJ e ainda o cargo de presidente da Associação do Eco Parque do Relvão. Para além disso ainda me ofereceu 20 mil euros para desenvolver projectos turísticos do Casal Vale Formoso. Fiquei a olhar para ele e disse-lhe que não me imaginava nesse filme. Provavelmente esperava que dissesse mais alguma coisa.
Mas entretanto o PSD contactou-o? Sim, e perguntaram-me se tinha interesse em voltar a candidatar-me como cabeça-de-lista à presidência do município. Fiquei muito admirado, porque o senhor Rui Martinho disse-me que tinha o apoio do PSD. Eu disse-lhes que sim, mas que o então presidente de junta estava a contar com o apoio do partido. Eles mantiveram a decisão. Entretanto, perto do Natal desse ano, fui convidado pelo senhor Rui Martinho para ir a uma reunião na sede da junta de freguesia onde também estava o actual vereador do movimento independente João Santos. Enfim, quiseram reforçar aquilo que já me tinham oferecido e que relativamente à questão da minha associação, em vez de oferecer 20 mil euros, ofereciam 25 mil.
O que disse nessa altura? Que não se fazem negócios com o município da Chamusca. Disse-lhes também que tinha um convite do PSD para me recandidatar e que com esta postura deles o mais certo era aceitar. Voltamos à questão da dignidade. O nosso concelho precisa de pessoas com princípios e valores. Não de pessoas com ambições políticas que são capazes de passar por cima de qualquer coisa ou qualquer um. Orgulho-me de não vender a alma ao diabo.
“Há muita vigarice no mundo da tauromaquia”
Foi cabo do Aposento da Chamusca durante 30 anos. O que aprendeu em termos de liderança de homens? Que um líder tem de estar sempre presente quando as outras pessoas precisam. Quando começámos o grupo, nos anos 80, também não sabia nada. Aprendi tudo no terreno. Mas penso que fizemos daquele grupo aquilo que ainda é hoje. Uma família unida e um grupo digno. Um conceito amador, mas o mais profissional possível.
A tauromaquia estar dependente dos municípios tira-lhe essa dignidade? Prejudica tudo. Sou do tempo em que ia a Lisboa para falar com dois ou três empresários que me mostravam uma lista de 30 corridas que iam promover e me ofereciam três para escolher. Hoje não é nada assim. Os valores mudaram completamente. Hoje há muita vigarice no mundo da tauromaquia. Quando tocam nos forcados, tocam nas minhas entranhas e isso não aceito.


