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Ribatejano dirige a cidade desportiva de um dos maiores clubes africanos
Carlos Coutinho tem uma relação próxima com os atletas da formação

Ribatejano dirige a cidade desportiva de um dos maiores clubes africanos

Carlos Coutinho é natural de Alpiarça. Destacou-se na administração das empresas municipais Scalabisport (Santarém) e Desmor (Rio Maior). Há dois anos aceitou o desafio de ir gerir os equipamentos desportivos do Clube Desportivo 1º de Agosto, em Luanda, capital de Angola. É um homem realizado, apesar das saudades.

Edição de 22.02.2017 | Entrevista

Chegar, ver e vencer. Este podia ser o mote para resumir o trabalho de Carlos Coutinho, 41 anos, ao serviço do Clube Desportivo 1º de Agosto, em Luanda, capital de Angola. O técnico superior de desporto, natural de Alpiarça, rumou a África no Inverno de 2015, após uma passagem feliz de cinco anos pela administração da empresa municipal Desmor, que gere o complexo desportivo de Rio Maior. A sua missão é gerir as instalações desportivas do clube ligado às forças armadas angolanas e, pouco mais de ano e meio depois, o ribatejano - que ainda pertence ao quadro de pessoal da Câmara de Alpiarça - viu o 1º de Agosto ser campeão nacional de futebol, coisa que não acontecia há 10 anos, tendo sido também protagonista de uma reportagem da televisão estatal sobre o trabalho que está a desenvolver no clube.
O director geral da Cidade Desportiva do Clube Desportivo 1º de Agosto diz que a experiência em Luanda tem sido muito positiva e agradece a oportunidade que lhe foi dada. O clube tem 16 modalidades, como futebol, basquetebol, andebol, hóquei em patins, ténis, vela e natação, e muitos títulos nacionais e africanos no seu palmarés, destacando-se, também, na área da formação.
E é esse o campo de Carlos Coutinho. “Para além de melhores capacidades físicas dos atletas, pretendemos contribuir para uma formação integral dos jovens, através da criação de bons hábitos desportivos, a melhoria da saúde e ganho de um conjunto de valores, como a responsabilidade, o rigor, a solidariedade e a cooperação”, diz a
O MIRANTE na entrevista concedida via email.
Carlos Coutinho diz que tem uma relação mais próxima com os atletas da formação, principalmente das modalidades de andebol e basquetebol feminino e futebol masculino, as modalidades que têm atletas (talentos) como residentes, na Cidade Desportiva. Preocupa-se com o seu bem-estar mas, também, igualmente, com o seu comportamento, seja no desporto ou na escola. Refira-se que dois jogadores do 1º de Agosto foram transferidos para o Sporting Clube de Portugal em Dezembro - Gelson Dala, que tem jogado na equipa B dos leões, e Ary Papel, emprestado ao Moreirense.
Na gestão do complexo desportivo de Rio Maior não lhe faltava que fazer e o tempo era contado. E em Angola é igual. “Os meus dias começam, sempre, muito cedo e terminam muito tarde. Todos os dias. A minha presença e intervenção são especialmente activas e exigentes. Mas é também aí que encontro motivação para continuar. Na relação com as pessoas que querem aprender, numa humildade e dedicação crescentes, por um projecto que sentem como seu, como nosso”.

Família bem integrada
Foi sozinho para Angola mas, passados alguns meses, a esposa, Cláudia, e o casal de filhos juntaram-se. Um bálsamo para atenuar as saudades. Diz que é difícil particularizar do que sente mais falta. “Para além da família, dos amigos, dos convívios, tenho saudades de uma coisa que é difícil de explicar - estrutura e ordem. Precisamos de referências de organização e de rigor, é importante para o nosso bem-estar e equilíbrio”, afirma. Os queijos, os chouriços e as farinheiras de Alpiarça, que a avó Ricardina lhe manda, ou as ferraduras e broas que a mãe faz questão que nunca faltem lá em casa, ajudam a mitigar alguma nostalgia dos sabores lusitanos.
Carlos Coutinho garante que nunca se irá arrepender de ter ido trabalhar para Angola, “mesmo com as saudades e faltas sentidas que são, muitos dias, difíceis de superar”. Conta que a adaptação a Luanda não foi difícil. “Tinha por cá muitos amigos, amigos de amigos e amigos de familiares que me acolheram, muito bem. Isso foi muito importante”.
Hoje, a família está toda bem integrada. “Na verdade, gosto de viver aqui. Gosto de estar em minha casa com amigos ou na casa dos amigos. Encontrei, reencontrei amizades antigas e fiz novas amizades. Pessoas que nos ajudam - pelas suas experiências de África e vida de emigrantes - a superar as dificuldades e nos ensinam a viver melhor com os novos paradigmas a que somos sujeitos. De resto, a vida não é muito diferente da que tinha em Portugal. De casa para o trabalho e do trabalho para casa…”, mas também com espaço para “ter bons momentos de descontracção e convívio familiar”.

Emigrou cansado da crise
Carlos Coutinho procura estar informado sobre o que se passa na região e no país. “Às vezes é difícil, pelos dias super preenchidos que aqui vamos tendo, mas vou lendo O MIRANTE e acompanho as principais noticias dos jornais diários portugueses, via online. Em termos nacionais, temos acesso a todas as estações televisivas de notícias de Portugal”.
E porquê emigrar? “Quando decidi sair de Portugal foi por me sentir muito cansado com o que se tinha passado nos anos de 2009 a 2015. Foram anos difíceis para quem, como eu, tinha a responsabilidade de gerir a ‘coisa pública’. No meu caso, em que as empresas municipais eram vistas como as ‘nuvens negras’ da administração pública, foram anos muito complicados. Tudo mudou. Foram anos em que se precisou de muita persistência para passar pela crise e não deixar que a crise passasse por nós”, afirma.
Carlos Coutinho também passou pela política autárquica. Integrou a bancada do PSD na Assembleia Municipal de Santarém neste mandato, antes de rumar a Angola. Acha que o país hoje está melhor, mas não entra em optimismos exagerados. “Basta uma corrente de ar nas taxas de juro para tudo tremer. Parece-me prematuro o optimismo que se está a viver, mas espero estar enganado”.

Com Gelson Dala, antes do futebolista ingressar no Sporting

O colega ribatejano

Carlos Coutinho tem a companhia de alguns portugueses a trabalhar no 1º de Agosto, mais ligados à área do treino nas modalidades desportivas. Um deles é ribatejano, Telmo Costa, natural do Tramagal (Abrantes). Treina a equipa sub 17 de futebol e antes disso passou como técnico pelos escalões de formação do Sporting Clube de Portugal, onde foi campeão nacional. “É um bom amigo que encontrei”, diz.

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