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“A instabilidade que as pessoas vivem afecta brutalmente a saúde mental”
Para Mário Nave a medicação não é resposta para os problemas da saúde mental

“A instabilidade que as pessoas vivem afecta brutalmente a saúde mental”

A propósito do Dia da Saúde Mental O MIRANTE falou com Mário Nave, psicólogo clínico em Santarém. O especialista admite que as pessoas não sabem estar sozinhas, vivem para as aparências e têm dificuldade em enfrentar o silêncio. Considera que se abusa dos psicofármacos e que a instabilidade, nas suas mais diversas cambiantes, afecta brutalmente a saúde mental.

Edição de 23.10.2019 | Sociedade

Mário Nave, 32 anos, é psicólogo clínico em Santarém e garante que não se vê noutra profissão porque sempre teve a tendência de olhar para o outro e de procurar perceber o que este está a sentir para o poder ajudar. “São características que nasceram comigo. Não as tinha conscientes, mas para os meus colegas de liceu ter seguido este caminho não foi surpresa”, conta.
No final da formação académica no ISPA (Instituto Superior de Psicologia Aplicada), em Lisboa, Mário decidiu deixar de nadar na maionese e começar a aplicar todos os conhecimentos. Foi quando veio para a Santa Casa da Misericórdia de Santarém fazer voluntariado e trabalhar no projecto de apoio ao Rendimento Social de Inserção (RSI) e na creche.
Mário afirma que Santarém não é um distrito onde exista pobreza extrema, mas há muitas famílias a viverem em condições menos dignas e que, por isso, têm tendência a desorganizarem-se e a desenvolverem patologias mentais. “Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) Portugal aumentou exponencialmente o consumo de psicofármacos após a crise de 2008. A instabilidade que as pessoas vivem afecta brutalmente a saúde mental”, afirma.
A doença mental consegue categorizar-se mas Mário admite que o segredo para quem trabalha com este tipo de problemas é aprender a não catalogar pessoas. “O psicólogo deve aprender a olhar para o sofrimento das pessoas, perceber o que estão a sentir e o que podem mudar”, refere, declarando que vivemos numa sociedade de hiperfuncionais. “Para muita gente a imagem é uma coisa imaculada. O que interessa é parecer e não ser”, afirma.
Neste capítulo, Mário Nave dá um exemplo: “Ainda esta semana tive uma paciente que me dizia ‘doutor sinto-me completamente triste e abatida diariamente mas, como vê, aqui estou vestida de cor-de-rosa e muito bem-disposta’”. Isto para explicar que irá chegar o momento em que há uma rotura na vida destas pessoas, porque ninguém consegue estar sempre bem.
Uma das maiores preocupações de um psicólogo passa pelo consumo excessivo de medicação. Portugal é um dos países europeus com maior consumo de psicofármacos e os efeitos no organismo são muito problemáticos. “A medicação em certos casos é essencial, mas não é a resolução para o problema. Não é a resposta”, diz.

Solidão potencia problemas mentais
Mário Nave considera que uma das razões para o aparecimento de problemas mentais é a solidão. “Se virmos alguém sozinho a contemplar o rio Tejo nas Portas do Sol vamos pensar que aquela pessoa está a ficar maluca. Mas se virmos alguém agarrado ao telemóvel a escrever mensagens já é normal”, diz como exemplo para sublinhar que a necessidade de estar sempre a fazer alguma coisa leva à exaustão.
O especialista acha que o foco deve estar em cuidar dos adultos de hoje para ensinarem as crianças de amanhã. Cinquenta por cento das perturbações que não são alvo de tratamento na infância acabam por persistir na idade adulta. “Hoje os miúdos saem do infantário a saber ler. E onde fica o tempo para brincar? Temos crianças que estão na escola doze horas seguidas. Quando é que eles estão com os pais”, questiona.
E dá o exemplo de Santarém para explicar que deviam ser criadas condições para as pessoas andarem mais na rua. “Em Santarém existem poucos parques infantis, mas os que existem estão sempre vazios. Se passarmos para a faixa etária dos jovens adultos vivemos numa cidade de estudantes, mas as ruas estão sempre vazias”, afirma.
Segundo Mário Nave são necessárias mudanças de fundo na forma como as pessoas vêem a doença mental. O psicólogo considera que as pessoas precisam de compreender que ter uma doença mental não as torna diferentes e que devem recorrer à ajuda qualificada sem vergonha. “Tenho pessoas que vivem no Ribatejo e vão ao meu consultório em Lisboa para ter consulta. O estigma existe mesmo. Já tive pacientes a pedirem para não os cumprimentar na rua”, conclui.

A realidade hospitalar em Santarém

As estatísticas mostram que uma em cada cinco crianças apresenta evidências de problemas mentais, sendo que metade destas tem uma perturbação psiquiátrica. Apenas 10 a 15 por cento dos jovens com problemas de saúde mental recebem uma resposta adequada às suas necessidades. Para Mário Nave a realidade hospitalar em Santarém, infelizmente, não foge à regra. “Não tenho a certeza absoluta, mas nos dois Centros de Saúde de Santarém só há uma psicóloga. Depois existem três no hospital, mais alguns no Centro de Atendimento de Toxicodependentes (CAT) e há mais alguns na câmara. Há uma certa capacidade de resposta, mas se nos cingirmos ao meio hospitalar ele não tem capacidade de resposta para todas as solicitações”, afirma.

“A instabilidade que as pessoas vivem afecta brutalmente a saúde mental”

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