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Passageiros viajam como sardinhas em lata entre VFX e Lisboa
Carruagens viajam sobrelotadas e os utilizadores há muito que esgotaram a compreensão para os incómodos causados

Passageiros viajam como sardinhas em lata entre VFX e Lisboa

Comboios atrasados e sobrelotados são o prato do dia no trajecto entre Vila Franca de Xira e Lisboa. O MIRANTE foi ver em que condições viajam os passageiros e ouviu muitas queixas que evidenciam as fragilidades do serviço público oferecido pela CP.

Edição de 01.02.2020 | Cultura e Lazer


Perto das oito horas da manhã, na estação de comboios de Vila Franca de Xira, já está formada na linha dois uma fila alinhada de pessoas impacientes pela chegada do próximo comboio em direcção a Lisboa. Os possíveis atrasos e supressões fazem com que alguns adiantem o relógio e viajem com mais de uma hora de antecedência.
Virgínia Santos faz este percurso há dez anos, o último como beneficiária do novo passe social que é amigo da carteira, mas que encheu os comboios de gente. Viaja em pé na companhia da filha, não por opção mas por falta de lugar sentado. “Aqui já vamos em condições péssimas e quando chega à Póvoa de Santa Iria andamos aos empurrões uns aos outros até acabar de encher”.
Ainda assim o cenário era menos desesperante do que o habitual, pela descrição de outra passageira. “O normal é viajarmos tipo sardinhas em lata. Hoje está a ser uma excepção porque não costuma ser este comboio, mas um mais pequeno”, diz a O MIRANTE, Vera Silva, que faz a viagem entre a Póvoa de Santa Iria e Santa Apolónia. Ainda assim, não conseguiu um lugar sentado.
Para Vera Silva, residente em Vialonga, a poupança em combustível fala mais alto do que o desconforto sentido numa viagem feita de encontrões, com mochilas, malas e marmitas a servir de arma de arremesso, para se ganhar mais uns centímetros de espaço.
Na ligação das 09h02, que nem é das mais concorridas para quem quer chegar a Lisboa, instaurou-se o caos, com pessoas a ocupar todo o espaço existente nos corredores das carruagens, insuficientes para tanta procura. “Devíamos ter ido no das 08h58, que vem de Tomar, mas está com meia hora de atraso”, atira Manuela Santos que seguia para Santa Apolónia. Quando as portas se abrem, na estação seguinte, ninguém sai, mas há quem tente entrar. “Às vezes é mesmo assim, só ao empurrão”, constata.
Na carruagem onde seguia a reportagem de O MIRANTE duas passageiras olham para o cenário e desistem, dirigindo-se à carruagem anterior e entre empurrões e protestos de quem já viajava num aperto sufocante não perdem o comboio. “Respiramos uns em cima dos outros, tossimos para cima uns dos outros e levamos com o cheiro dos outros. É horrível viajar nestas condições”, protesta Carla Faria, enquanto ajeita o cachecol perfumado que usa para tapar a boca e a faz sentir “mais protegida”.

Mais passageiros e menos carruagens
Para este cenário caótico terá contribuído o desconto nos passes sociais, implementado em Abril de 2019, e que em seis meses já tinha trazido mais 150 mil passageiros aos transportes públicos da Área Metropolitana de Lisboa. Quando o comboio vai sobrelotado os passageiros garantem que nem os revisores se atrevem a sair da cabine do maquinista, por falta de condições para fazerem o seu trabalho.
Quem viaja desde Azambuja felicita a medida mas reclama que comboios que antes partiam com seis carruagens viajam agora com apenas três. “Não se percebe como a procura aumenta e o meio de transporte diminui”, refere Helena Martins, que se desloca todos os dias do Cartaxo a Azambuja para apanhar o comboio para Lisboa.
Ricardo Domingos, que segue em pé, forçosamente encostado à porta, queixa-se das “condições muito fracas” que a CP oferece aos seus utilizadores. Entrou em Vila Franca de Xira, com destino à estação do Oriente, percurso que faz há anos, mas cada vez com mais desconforto. É um facto que “há cada vez mais passageiros devido ao desconto do passe social”, diz e atira que pouco falta para se reviver o cenário antes da revolução de 25 de Abril de 1974, “com pessoas a viajar penduradas nas portas”.
Na mesma carruagem há quem divida um banco de dois lugares com três pessoas, quem proteste quando leva um empurrão e quem tente pôr a leitura em dia, segurando o livro com uma mão e tentando manter o equilíbrio com a outra agarrada a um banco. Quando se chega ao Oriente assiste-se a uma espécie de salve-se quem puder, entre os que querem desembarcar e os que lutam por um lugar sentado para completar o que resta do percurso até Santa Apolónia.

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