Autarcas estão ao lado da população contra unidade de biometano em Árgea
Moradores contestam localização do projecto que prevê a instalação de uma unidade de produção de biometano a 200 metros de habitações e presidente da Câmara de Torres Novas diz que o concelho “não tem aptidão” para receber uma unidade deste tipo. Restante executivo também se coloca “do lado da população”.
A contestação à instalação de uma unidade de produção de biometano em Árgea, na União de Freguesias de Olaia e Paço, marcou a última reunião pública do executivo municipal de Torres Novas. Moradores, autarcas locais e o próprio presidente da câmara manifestaram sérias reservas quanto à localização escolhida para o projecto, que prevê tratar cerca de 100 mil toneladas anuais de resíduos biodegradáveis numa área de 4,8 hectares, com uma vida útil estimada de 30 anos.
Foram vários moradores usaram da palavra para exigir respostas políticas claras e defender a relocalização do projecto para uma zona afastada de áreas habitadas. As preocupações incidiram sobretudo sobre os impactos ambientais, a rede viária, a saúde pública e a qualidade de vida das populações de Árgea, Barroca, Carreira da Areia e localidades vizinhas.
O presidente da Câmara de Torres Novas, José Trincão Marques (PS), assumiu uma posição frontal contra a localização prevista. “Na minha opinião, o concelho de Torres Novas não tem aptidão para receber uma unidade deste tipo e podem contar comigo para estar do vosso lado para defender esta causa”, declarou o autarca.
Trincão Marques revelou ainda que só tomou conhecimento da existência do projecto em Fevereiro, depois de ter sido contactado pela empresa promotora. Mais tarde, disse ter descoberto a existência de uma deliberação camarária de 21 de Maio de 2025, aprovada por unanimidade, que deu parecer favorável à localização proposta para a unidade. O actual presidente não participou nessa decisão, uma vez que ainda não integrava o executivo municipal, do qual fazia parte a vice-presidente, Elvira Sequeira e o vereador do PSD, Tiago Ferreira.
O autarca socialista defendeu que a proximidade da infraestrutura a habitações, o volume de resíduos previsto, o tráfego pesado associado e os potenciais impactos ambientais levantam “sérias preocupações”. “Defendo a produção deste tipo de energia, mas num outro local, num local que não seja habitado da forma que é aquele”, afirmou.
José Trincão Marques apontou ainda o Plano Director Municipal como uma “barreira” para travar o avanço do projecto naquela localização. Segundo o presidente da câmara, o PDM actualmente em vigor não permite este tipo de instalação no local proposto, estando o município a acompanhar o processo e a estudar soluções legais para defender “o território, as populações, a biodiversidade e a qualidade de vida”.
O Movimento Defender Árgea e Aldeias Vizinhas, recorde-se, tornou pública a sua oposição à localização da unidade, sublinhando que não está contra o biometano nem contra a transição energética. O que os moradores dizem não aceitar é que uma infraestrutura desta dimensão seja instalada perto de povoações, com riscos que associam aos maus cheiros, à qualidade do ar, à eventual contaminação de poços usados por famílias da zona, ao aumento do trânsito de pesados e à desvalorização das habitações.
A população quis também ouvir a posição do vereador Tiago Ferreira (PSD), que no anterior mandato votou favoravelmente o despacho do então presidente da câmara municipal, Pedro Ferreira, relativo à instalação daquela unidade em Árgea. Perante os moradores, Tiago Ferreira afirmou que o PSD está “completamente do lado da população se entenderem que não querem o projecto”.
O vereador social-democrata criticou, no entanto, o facto de José Trincão Marques ter afirmado que apenas soube do projecto em Fevereiro, considerando que existiu uma “falha de comunicação”, tendo em conta que no mandato anterior, Pedro Ferreira, também do PS, presidia à câmara, enquanto José Trincão Marques era presidente da Assembleia Municipal de Torres Novas. “Estamos todos alinhados. Se este projecto for para prejudicar a população não pode ir para a frente”, afirmou.
Também o presidente da União de Freguesias de Olaia e Paço, Rui Nunes (PSD), reiterou a posição desfavorável da autarquia local à instalação da unidade junto à aldeia de Árgea. O autarca frisou que a freguesia não rejeita a transição energética nem a valorização de resíduos, mas considera que a localização escolhida “não é adequada”, pelos impactos potenciais sobre as populações, os recursos hídricos, a rede viária e a qualidade de vida. Apelou ainda ao município para assumir uma posição “firme, inequívoca e desfavorável” relativamente ao projecto, cuja proposta está em consulta pública até 25 de Junho.


