Projecto Eucalipto | 25-09-2026 07:00

Os incêndios não respeitam fronteiras: o exemplo da Galiza e do Norte e Centro de Portugal onde o eucalipto continua a dividir opiniões

Os incêndios não respeitam fronteiras: o exemplo da Galiza e do Norte e Centro de Portugal onde o eucalipto continua a dividir opiniões
A paisagem, depois dos fogos, regenera para meia dúzia de anos depois voltar a arder. Esta é a realidade dos territórios do interior da Galiza e do Norte e Centro de Portugal. As celuloses são acusadas de explorarem o território de floresta, mas onde não há eucaliptos há mato, e os governantes fecham os olhos ao ordenamento do território que parece a solução adiada para todos os males e, em alguns casos, a caça ao negócio por parte de madeireiros e outros empresários que ganham com a falta de políticas públicas para o sector. foto ilustrativa

Galiza e Norte e Centro de Portugal sofrem dos mesmos problemas do abandono do território. A falta de população e o fim da actividade económica ligada à agricultura e à floresta é uma das razões para a propagação dos incêndios que causam pobreza e acabam com a biodiversidade. A exploração do eucalipto é contestada há muitos anos, mas a verdade é que a indústria continua a aumentar e não há políticas públicas que ajudem a encontrar soluções alternativas.

Os incêndios não distinguem territórios nem respeitam fronteiras. E é precisamente esse território que desaparece quando a discussão fica reduzida à árvore. Cristina Fernández Filgueira, “ https://gal.galiciapress.es/artigo/economia/2026-06-26/5933851-seleccion-mina-doade-como-proxecto-estratexico-ue-segue-xudicializada-denuncia-ecoloxistas-accion-ante-tjue “ investigadora da ecologia do fogo, lembra que chamar “pirófita” a uma espécie não significa que ela provoque incêndios. Significa que possui características que lhe permitem sobreviver ou recuperar depois do fogo. Tal como os investigadores Jacob Keizer, Filipe Catry e Akli Benali referem “ https://omirante.pt/projecto-eucalipto/2026-07-14-a-ciencia-que-o-pais-ignora-o-diagnostico-dos-especialistas-para-salvar-o-territorio-dos-fogos-e-do-problema-da-eucaliptizacao-2eb62887 “ , o comportamento de um incêndio depende do combustível disponível, da sua continuidade, da humidade, do vento e das condições meteorológicas. Na Galiza, como em Portugal, vastas áreas de mato podem representar uma enorme quantidade de combustível, enquanto o abandono permite que a vegetação avance sem interrupção.

A paisagem, nesse sentido, tornou-se mais importante do que a espécie. Quando um incêndio atravessa uma propriedade, não sabe onde termina uma parcela e começa outra, não distingue um terreno bem gerido de um terreno abandonado e não respeita as fronteiras administrativas. O fogo encontra continuidade onde o território a oferece. É por isso que a prevenção não pode depender exclusivamente de decisões individuais nem ser pensada apenas à escala de cada exploração.

Portugal começou a desenvolver instrumentos como as Zonas de Intervenção Florestal, mas a experiência mostra que a organização coletiva continua frágil em muitos territórios. Júlio Catarino “ https://omirante.pt/entrevista/2026-08-05-gaviao-um-territorio-entre-a-beira-baixa-alentejo-e-ribatejo-onde-a-floresta-podia-ser-a-maior-riqueza-7a242ee9 “ aponta a necessidade de reforçar estas estruturas, enquanto Jorge Sousa “ https://omirante.pt/entrevista/2026-08-03-gerir-o-territorio-sem-conhecer-os-seus-proprietarios-e-um-obstaculo-intransponivel-para-a-estrategia-de-ordenamento-b6bcd9f9 ” defende melhores mecanismos de informação, apoio técnico aos pequenos proprietários e formas de remunerar os serviços prestados pelos ecossistemas. João Baeta “ https://omirante.pt/entrevista/2026-07-30-a-floresta-portuguesa-precisa-de-economia-de-maquinas-e-coragem-politica-para-se-aplicarem-medidas-impopulares-8190a2e9 “acrescenta uma dimensão mais incómoda: há situações em que a ação voluntária simplesmente não chega e em que o Estado terá de aplicar medidas impopulares, incluindo mecanismos fiscais que penalizem o abandono.

Na Galiza, o problema aparece de forma semelhante quando as obrigações de limpeza e gestão das parcelas esbarram na existência de milhares de proprietários, muitas vezes ausentes ou difíceis de identificar, e numa estrutura fundiária onde parcelas de reduzida dimensão tornam difícil financiar intervenções regulares. A falta de fiscalização e de meios administrativos acrescenta outra camada ao problema.

No fundo, Portugal e Galiza estão a enfrentar uma transformação que começou muito antes dos incêndios que hoje dominam as notícias. O mundo rural perdeu população, a agricultura deixou de ocupar uma parte importante do território, a propriedade permaneceu fragmentada e a floresta ganhou peso económico. O eucalipto encontrou nesse processo uma vantagem que poucas outras culturas florestais conseguem oferecer: cresce depressa, tem mercado e permite ao proprietário obter algum rendimento mesmo quando não dispõe de escala ou meios para construir uma exploração florestal diversificada.

Mas aquilo que é rentável para uma parcela não é necessariamente suficiente para proteger uma paisagem.

É essa contradição que explica porque o debate sobre o eucalipto se tornou tão difícil. A espécie não pode ser apresentada como a origem de todos os incêndios, porque os dados e a ecologia do fogo mostram uma realidade muito mais complexa. Mas também não pode ser retirada da equação quando se fala de continuidade florestal, gestão, ocupação do território, recuperação após o corte e escolhas económicas que moldam a paisagem durante décadas.

O problema está, afinal, menos na existência do eucalipto do que no território que o rodeia e nas condições que permitiram que ele se tornasse, em tantas zonas, uma das poucas opções economicamente viáveis.

Portugal e Galiza fizeram escolhas administrativas diferentes, têm leis diferentes e estruturas de propriedade que não são exatamente iguais. Mas enfrentam uma pergunta comum: quem vai cuidar do território quando já não houver pessoas suficientes para o fazer, quando as parcelas forem demasiado pequenas para justificar investimento e quando a floresta depender cada vez mais de decisões tomadas por proprietários que vivem longe dela?

A resposta não estará apenas numa nova restrição ao eucalipto, nem numa defesa incondicional da espécie. Terá de passar por uma política de território capaz de juntar propriedade, economia, floresta, agricultura, biodiversidade, prevenção e população rural numa mesma estratégia. Porque uma floresta não é apenas aquilo que cresce nas árvores; é também aquilo que existe entre elas, quem trabalha esse espaço, quem o conhece, quem o limpa e quem tem razões para continuar a viver nele.

O incêndio começa nas chamas, mas a história que o explica pode começar vinte anos antes. No Norte e no Centro de Portugal, como na Galiza, essa história passa por uma paisagem que mudou profundamente enquanto a capacidade de a gerir não acompanhou a mesma velocidade.

E talvez seja essa a verdadeira questão que fica depois de o fogo passar: não apenas porque ardeu, mas quem estará lá para cuidar do território antes de voltar a arder mais uma vez, e outra, e outra.


O MIRANTE está a trabalhar num projecto editorial para identificar as consequências da eucaliptização no ambiente e no tecido socioeconómico de Portugal e da Galiza. O trabalho é apoiado pelo Journalismfund Europe e é realizado em parceria com o jornal digital Galiciapress. A Journalismfund Europe é uma organização sem fins lucrativos, com sede em Bruxelas, que procura fortalecer a democracia na Europa através do apoio ao jornalismo de investigação independente.

Pode consultar todas as notícias do projecto neste link

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