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Crónica ao jeito de um antigo director de jornal mas sem sexo pelo meio

Apontamentos de um jornalista que vive e trabalha no Ribatejo e que nunca se rendeu ao poder de Lisboa.

Edição de 14.08.2019 | Opinião

Fui amigo de uma pessoa com alguma importância na Caixa Geral de Depósitos que me contou que na instituição era normal encomendarem estudos de mercado, que custavam milhões de euros, que depois desapareciam nas gavetas porque a encomenda era só para dar dinheiro a ganhar às empresas amigas do Governo e dos administradores. Por essa altura falava regularmente com um elemento do gabinete do ministro do Ambiente, José Sócrates, que me confessava que o seu chefe detestava o presidente da Câmara de Santarém da altura, José Miguel Noras, e que não queria nada com ele nem com quem o acompanhava. E aproveitava para me pedir regularmente informações sobre a vida política local.


Um dos mais influentes jornalistas dessa altura, de quem ainda hoje sou amigo, dizia-me que Santarém ainda ia ser a quarta cidade do país a seguir a Lisboa, Porto e Coimbra, por estar tão perto da capital e ter um excelente património. E que Tomar disputaria essa capitalidade valorizando ainda mais a região ribatejana. As potencialidades estão à vista mas a Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), e outras associações de negócios, com conivência dos políticos locais, vivem no melhor dos mundos e, como não é demais repetir, o melhor de Santarém para eles são os caminhos para Lisboa. A última tentativa da dona do CNEMA de vender um terreno à Câmara de Santarém por 20 milhões de euros é de bradar aos céus e diz bem o que são as forças de bloqueio e para que servem.


Um dia senti-me de tal forma indignado com as políticas de um ministro com a pasta da Comunicação Social (Santos Silva), que fui atrás de um pedido de reunião até conseguir os meus objectivos. A primeira meia hora de conversa foi a ouvi-lo dizer os maiores disparates sobre o sector, sem direito a abrir a boca. Quando se cansou, e me deu a palavra, comecei o meu rol de perguntas em forma de críticas; passou o resto do tempo a pedir à Teresa (directora do Gabinete de Meios) que lhe traduzisse a conversa porque não estava por dentro da maioria dos assuntos.


O membro de um Governo que mais se serviu de nós para conhecer os meandros da luta associativa dos antigos patrões dos media foi aquele que mais prejudicou a imprensa regional (Alberto Arons de Carvalho). Recebia-me várias vezes por ano no seu gabinete, na Gomes Teixeira, para ficar por dentro daquilo que se falava nas reuniões. Nessa altura os patrões da comunicação social em Portugal faziam mossa no Governo quando decidiam juntar-se e falar a uma só voz. Foi com esse membro do Governo que tivemos a maior briga política; e deve-se a ele muito do que ainda hoje é o calcanhar de Aquiles da imprensa regional: por exemplo: os valores inflaccionados dos portes do correio uma vez que era o Governo que pagava e ninguém discutia preços.


Assisti de perto ao assalto aos grupos de comunicação social importantes, como o Diário de Notícias e o Jornal de Notícias, tomando nota de declarações, como as de António Oliveira, que a certa altura, referindo-se à compra do grupo destes dois jornais, disse que tinha comprado um porco e ia receber um bacorinho. A frase ficou, mas também ficou a saber-se que quase tudo o que comprou não foi com o dinheiro dele; O caso de José Berardo não é muito diferente. Os políticos destas últimas décadas vão ficar muito mal na fotografia da História de Portugal.


Nos tempos em que a imprensa vivia dias felizes fui convidado para fazer parte da estrutura accionista da agência Lusa. Faltei à chamada porque nesse dia, ao fim da tarde, caiu uma tempestade sobre Lisboa que me impediu de chegar a tempo e horas ao bairro da Lapa, em Lisboa, onde decorria a assembleia-geral. Ainda hoje as tempestades inesperadas fazem-me lembrar o dinheiro que poupei nesse ano; e nos dias em que gasto mal o meu dinheiro levo à conta desse investimento que não fiz, numa agência com maioria de capital do Estado, cujos jornalistas muitas vezes trabalham em cima das notícias que O MIRANTE publica em primeira mão. JAE

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