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Tomar está na moda e o turismo ajuda
Nuno Garcia Lopes é escritor e Técnico de Comunicação da Câmara de Tomar desde 2002

Tomar está na moda e o turismo ajuda

Nuno Garcia Lopes, 54 anos, é técnico de comunicação da Câmara de Tomar desde 2002 e um apaixonado pela escrita, sobretudo poesia. Já publicou 15 livros e tem cerca de uma dezena prontos a publicar. Foi professor e jornalista e adora fotografia. Considera que as redes sociais vieram prejudicar o jornalismo e que Tomar pode tirar ainda mais proveito do facto de ter cada vez mais turistas.

Edição de 25.12.2019 | Entrevista

Desde criança que a escrita esteve muito presente na vida de Nuno Garcia Lopes. O pai trabalhava na fábrica de papel Matrena e havia sempre muitas folhas brancas em casa. Dobrava-as ao meio e com oito anos fez a sua primeira revista. Foi nessa revista que escreveu o seu primeiro poema, relacionado com o Natal. Recorda que teve vários professores que o incentivaram a escrever. No último dia de cada período escolar, apesar da timidez, pedia à professora de Português para ler um poema e era nessas alturas que se soltava e sentia feliz.
No 10º ano venceu um prémio de poesia e ganhou vários livros de poesia que eram novidade para si. Publicou o seu primeiro livro de poesia aos 30 anos, quando considerou que a sua escrita já tinha alguma maturidade. Tem cerca de 15 livros publicados, entre prosa e poesia, mas confessa que a poesia está sempre mais presente na sua vida. Tem mais dez livros em condições de serem publicados. Tudo depende das editoras. “Hoje qualquer pessoa publica um livro. Basta ter dinheiro. Prefiro um bom editor, que me dê boas condições ao nível da distribuição, porque isso é o mais importante”, considera.
Nos últimos tempos está ligado à Nervo, uma revista de poesia que realiza diversas iniciativas e tertúlias na zona do Médio Tejo. Também é apaixonado por fotografia. Nuno Lopes licenciou-se em Línguas e Literatura Moderna na Universidade de Lisboa. Durante a faculdade trabalhou no Diário de Notícias Jovem, onde durante um ano escreveu uma página sobre música.
No entanto, o mundo do jornalismo surgiu mais cedo na sua vida. Aos 16 anos foi convidado para escrever no extinto jornal “O Nabão”. Depois de tirar o curso ainda deu aulas de Português e Francês mas regressou a Tomar e começou a trabalhar no jornal O Templário. Durante algum tempo conciliou o jornalismo com as aulas que leccionava em Tomar.
É técnico de comunicação da Câmara de Tomar desde 2002 e confessa que é um trabalho mais estável do que o jornalismo mas o bichinho da profissão, sobretudo da rádio, nunca desapareceu. Na sua opinião, o jornalismo mudou muito nos últimos anos e as redes sociais vieram prejudicar a actividade. “Existem muitas pessoas que não sabem distinguir uma notícia verdadeira de uma falsa, o que prejudica o jornalismo”, afirma. Confessa que gostava de terminar a sua carreira profissional na biblioteca municipal da cidade, porque é ali, junto dos livros e das pessoas, que se sente bem.

aposta na criação de produtos culturais para turistas
Nuno Garcia Lopes é natural da Linhaceira, a maior aldeia do concelho de Tomar. Apesar de considerar que o associativismo está sempre em crise, dá o exemplo da sua aldeia e de Cem Soldos, também em Tomar, onde o trabalho das associações é muito visível. “A saída das pessoas das aldeias e o nascimento de cada vez menos crianças faz com que tudo vá morrendo nas aldeias e a tendência é a piorar. A freguesia de Asseiceira e Cem Soldos são excepções, onde existe um bairrismo muito grande. Mas, por exemplo, Santa Cita, uma localidade que vivia muito da parte industrial, perdeu quase metade da população com o encerramento das fábricas”, explica.
O escritor considera que o Politécnico de Tomar tem uma importância fundamental no desenvolvimento do concelho. Traz jovens para a cidade, o que dinamiza muito a economia do concelho. Nuno Lopes considera que a Câmara de Tomar tem apostado muito no turismo e que a cidade está na moda. “Vêem-se muitos turistas nas ruas durante todo o ano. Tem havido também uma grande aposta no alojamento, que era uma falha, e isso tem aumentado o turismo em Tomar”, afirma.
Para Nuno Lopes, Tomar tem que resolver a falta de emprego que traria mais pessoas para viver no concelho. Em Tomar faz falta uma maior aposta na cultura virada para o turista. “O turista é alguém que compra por isso deveriam ser criados produtos culturais, como livros que contem a história da cidade, que o turista possa levar para casa”, diz.
Na Linhaceira o novo centro escolar, que vai entrar em funcionamento no próximo ano lectivo, é um desejo com 20 anos. O facto de estar construído ao lado do salão multiusos da Associação Cultural e Recreativa da Linhaceira vai permitir que este espaço seja utilizado como pavilhão desportivo do centro escolar. “É uma forma de rentabilizar custos e vai fazer com que o ponto central da Linhaceira passe a ser junto à associação”, conclui.

“É o amor que nos salva de uma perda tão grande”

Nuno Garcia Lopes nunca teve o hábito de ir a cemitérios mas desde que Helena, a sua companheira de mais de duas décadas, morreu, em Março deste ano, que isso se alterou. Se for almoçar a casa, por exemplo, passa por lá. Leva-lhe sempre uma flor, mesmo que seja colhida no mato. Nuno costumava oferecer flores à esposa e gosta de continuar a cultivar esse hábito. Três a quatro vezes por semana vai à sua campa. Sai de lá sempre mais sereno e feliz.
“Amava tanto a Helena, e ainda amo, que sinto que não a perdi. É esse sentimento que tento manter para mim. Que não foi uma perda, ela continua comigo”, confessa a O MIRANTE. Nuno nunca gostou de usar aliança por obrigação. Desde que a esposa morreu que faz questão de a usar todos os dias porque agora lhe faz sentido.
Helena Marques morreu aos 46 anos vítima de uma doença rara auto-imune. Uma morte inesperada cuja doença foi descoberta pouco tempo antes do seu falecimento. “Foi importante ter-me conseguido despedir dela no dia em que partiu. Deu-me uma grande serenidade”, conta, acrescentando que lhe escreveu uma carta de despedida que leu no dia do funeral.
A serenidade com que também as duas filhas, Catarina e Mariana, de 18 e 12 anos, lidaram com o processo de perda da mãe ajudou a que o luto esteja a ser feito de forma tranquila. “É o amor que nos salva de uma perda tão grande”, sublinha.
Nuno Lopes refugiou-se ainda mais na escrita desde que ficou sozinho com as filhas. A escrita ajudou-o a levantar-se. Actualmente está a escrever um livro infantil, onde Helena é a personagem principal. Será uma forma de homenageá-la. Em dias especiais gosta de escrever-lhe algumas palavras e partilhá-las na sua página da rede social Facebook. “É uma forma de manter viva a sua memória”, afirma.

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