Três Dimensões | 25-01-2023 07:00

“O futuro da agricultura depende da mão-de-obra estrangeira”

“O futuro da agricultura depende da mão-de-obra estrangeira”
TRÊS DIMENSÕES
Pedro Mascarenhas é director de produção da Quinta da Alorna, em Almeirim

Pedro Mascarenhas, 61 anos, director de produção da Quinta da Alorna, Almeirim

Nascido no seio de uma família sem tradições ligadas ao vinho fez-se engenheiro agrícola. Pedro Mascarenhas é director de produção na Quinta da Alorna, de Almeirim, que comemora 300 anos de história com forte aposta na produção de vinho. Diz que produzir um hectare de vinha custa uma fortuna e que sem os imigrantes já não havia agricultura em Portugal. Vive no Vale de Santarém, valoriza a honestidade e não tem dúvidas de que gostar de vinho é moda que veio para ficar.

Plantar um hectare de vinha hoje custa uma fortuna. É pelo vinho que a Quinta da Alorna, que tem 200 hectares de vinhas velhas e novas, é conhecida há quase 300 anos e esse continua a ser o seu principal foco. No entanto as outras culturas, como milho, ervilhas, batata doce, batata de indústria, feijão verde, e a actividade florestal – cortiça - não são menosprezadas. Cabe-me propor as culturas, dar seguimento às operações, cumprir com o programa, as certificações e se possível melhorar os resultados.
O futuro da agricultura em Portugal depende da mão-de-obra estrangeira. Os portugueses não estão muito interessados em trabalhar no sector. A mão-de-obra é precisamente a maior dificuldade do sector vinícola pois apesar da mecanização da colheita ainda requer muito trabalho manual. Se não fosse uma equipa de trabalho temporário com pessoas estrangeiras, sobretudo de nacionalidade indiana e nepalesa, não conseguíamos manter a produção. Muitos têm o desejo de integrar a nossa sociedade e trazer para cá as suas famílias. Espero que o consigam, caso contrário acabam as vinhas e todas as culturas que exijam mão-de-obra neste país.
O aumento do preço da uva, do vinho e outros produtos deriva dos aumentos dos adubos, da energia, dos combustíveis e mão-de-obra. É uma bola de neve. Mas julgo que no caso dos vinhos a competição é tão grande que muitas empresas estão a comer um pouco da margem para manter o seu volume de vendas. O vinho está na moda e a entrar em novos mercados porque o consumidor é cada vez mais curioso.
Nasci em Santarém há 61 anos e cresci no Vale de Santarém, onde ainda vivo. Tal como eu houve gente da minha geração que cresceu e ficou por lá. Não sinto nostalgia da infância. Para mim o que está vivido é passado, mas não esqueço as festas da aldeia onde me divertia com os colegas de escola e dos jogos de futebol num descampado entre as equipas do Vale de cima e do Vale de baixo.
Trabalhar no campo traz-me qualidade de vida. Não me imaginava tirar um curso de Economia e ficar dez horas por dia num gabinete a olhar para um ecrã de computador. Quando acabei o curso de Engenharia Agrícola, aos vinte e poucos anos, fui acompanhar a vindima de uma pessoa amiga da família. Não percebia nada de vinhas. Comecei a trabalhar na área da horticultura, passei por uma unidade de produção de plantas, pela Agromais e pela Herdade da Comporta até, em 2016, entrar para a Quinta da Alorna, onde sou director de produção.
Ainda há casos em que o rótulo vende mais do que o vinho em si. O ser de uma determinada região ajuda a vender. Quanto ao vinho português, não tendo tanta notoriedade como o francês, a sua notoriedade não é tão elevada. A Comissão Vinícola Regional do Tejo tem feito um bom trabalho e levado as empresas da região a colaborar, o que é fundamental para que a marca suba uns degraus. Na Alorna temos actualmente dois amores: o Marquesa da Alorna e o Reserva das Pedras de vinhas velhas em calhau rolado.
Há secas repetidas e períodos de precipitação muito elevados que trazem prejuízos mas para já não há uma evolução dramática. Temos no entanto que estar preparados para isso. Temos várias castas na Quinta da Alorna. Observamos quais se comportam melhor em situações mais extremas e estudamos formas de produção com rega e sem rega e dependentes do solo e da orientação das vinhas à exposição solar.
Sou um apreciador de vinho e um bebedor social, ou seja, o vinho faz parte da conversa com os amigos. Beber sozinho é raro. Não gosto de vinhos extremamente ácidos nem de tintos velhos cheios de madeira, muito trabalhados artificialmente - levar aparas de madeira ao invés de ser envelhecido em barricas - e pouco genuínos.
É mais seguro comprar legumes num hipermercado do que numa loja de bairro. Uma grande distribuidora não vai pôr em risco a sua marca por um fornecedor desleixado com a sua produção. Também é certo que hoje é mais difícil comprar um produto verdadeiramente tóxico para o consumidor, mas pode acontecer por desconhecimento de um pequeno produtor local. Na Alorna a fertilização é orgânica e não mineral.
A honestidade é o que mais valorizo nas outras pessoas. Uma pessoa honesta é uma pessoa credível. Sou calmo e aprecio a tranquilidade. Seriedade é a minha maior virtude e a teimosia o maior defeito. Tenho memória fraca e por causa disso registo tudo o que tenho de fazer. Quando erro dou o braço a torcer e não me custa pedir desculpa.
Não é preciso ser o Elon Musk para se ser feliz. A riqueza, por si, não traz felicidade. Essa é estar-se satisfeito consigo próprio. Na Índia vi pessoas tão pobres e com um ar tão feliz… Viajei sozinho para Goa [Índia] em 2008, estive lá 10 dias e deslocava-me com a mota que aluguei à cozinheira do pequeno hotel onde fiquei. Não gosto de aeroportos, mas gosto de viajar.
Saltei de páraquedas e adorei. Ofereci um salto ao meu filho mais velho e acabei por saltar também. Sou apegado à família e não sou pessoa de fazer muitos planos para o futuro, mas vivo de olhos abertos a novas experiências e oportunidades.

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