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“No meu tempo entrávamos na política para servir os interesses da comunidade”

“No meu tempo entrávamos na política para servir os interesses da comunidade”

Joaquim Pereira Henriques ainda é visto por muitos munícipes de Alcanena como o eterno presidente da câmara.

Edição de 13.09.2017 | Entrevista

Muita gente se habituou a cumprimentá-lo por senhor presidente. A forma cordial e natural com que se dirige a todos, motiva o respeito dos que lhe reconhecem a dedicação ao concelho, não só como líder da autarquia mas também pelas passagens por algumas instituições do concelho. Uma figura incontornável que ficará na história do concelho e na memória de muitos como uma pessoa sempre disponível para ajudar sem pedir nada em troca.

“Hoje há uma grande crise de valores. Os políticos concorrem aos cargos pelo dinheiro e pelo poder, no meu tempo entrávamos na política para servir os interesses da comunidade”. Foi com este pensamento crítico que Joaquim Pereira Henriques, o primeiro presidente de câmara eleito em Alcanena, em 1976, iniciou a conversa com O MIRANTE.
Joaquim Henriques, 95 anos, não gosta da política que se faz actualmente, muito assente na demagogia, na difamação dos opositores e na deturpação de valores. Considera-se um defensor da democracia que deve ter como pilar o respeito pelos outros.
Nasceu a 16 de Março de 1922, o oitavo filho numa família de 10 irmãos, que não sobreviveram mais de uma década. Ficou Joaquim, como se “o destino conspirasse para lhe dar uma missão que haveria de cumprir”.
Joaquim Pereira Henriques nasceu em Alcanena, numa época em que ir à escola era um luxo e por isso reconheceu sempre o esforço do pai, operário de curtumes, e da mãe, costureira, para lhe proporcionarem condições para frequentar a escola. Terminou a quarta classe com distinção e reconhece que naquela época o ensino era muito exigente e preparava bem. Diz que ainda hoje o seu raciocinio matemático não fica aquém do de qualquer estudantre do 12º ano.
Entre sorrisos, Joaquim Henriques vai cumprimentando quem passa pelo local onde conversamos e ainda lhe reconhece o estatuto de ter passado dez anos na presidência da Câmara Municipal de Alcanena. A mãe, recorda, queria mandá-lo estudar para conseguir vida melhor e livrar-se de ir trabalhar para a fábrica de curtumes, onde quase todos os meninos daquela época iam parar depois de terminarem a quarta classe. Não foi estudar mais, porque o dinheiro era escasso, mas a mãe conseguiu arranjar-lhe um trabalho de ajudante na farmácia Abreu, onde esteve sete anos. Depois, as voltas da vida fizeram dele um homem dos sete ofícios: foi caixeiro, empregado de escritório, camionista e outras coisas “que já falha a memória”.
O jovem Joaquim fez parte do grupo “Malta Brava”, que organizava excursões, fazia teatro, promovia jogos de futebol, provas de ciclismo e outras tertúlias que aproximavam as pessoas e funcionavam como motor para promover a massa crítica e motivar para o futuro.
A tropa levou-o até Coimbra e foi integrado como ajudante de farmácia, numa altura em que a 2ª Guerra Mundial condicionava o consumo de vários artigos como o tabaco. O médico da companhia ficou-lhe reconhecido quando lhe cedeu tabaco que o clínico não conseguia encontrar em lado algum. Ficou reconhecido pelo gesto e destacou-o para Porto Brandão, uma unidade nova, ainda sem quadros, onde haveria de terminar a tropa sem constrangimentos.
Regressou a Alcanena para trabalhar num armazém de produtos químicos e promover a fundação do Atlético Clube Alcanenense, onde jogou futebol durante sete anos como defesa direito. Joaquim Pereira Henriques casou com 26 anos e começou a trabalhar como motorista, na transportadora do sogro. Mais tarde ajudou-o a abrir o primeiro posto de abastecimento de combustíveis, em Alcanena.


Ganhava dez contos mensais como presidente
Numa altura em que as ideias eram um capital de risco, Joaquim diz que sempre partilhou uma filosofia que assentava numa corrente socialista. “Acreditava que todos mereciam as mesmas oportunidades” e que o “dinheiro, vil metal que até desfaz o que Deus fez”, não pode determinar os lugares na sociedade.
Com a revolução de 25 de Abril de 1974, era preciso encontrar quem tivesse perfil para assumir a candidatura à presidência da câmara nas primeiras eleições livres e Joaquim Pereira Henriques acabou por aceitar o convite do PS para ser candidato, apesar da opinião contrária da família. Joaquim reconhece que sentia algum desconforto por ter apenas a quarta classe, mas a sua faceta autodidacta e bom senso ajudaram-no. Concorreu e foi eleito em 1976 o primeiro presidente da Câmara de Alcanena pós 25 de Abril.
O seu grande legado, nos dez anos que liderou a autarquia, passa pela electrificação de todo o concelho, pela construção de infraestruturas de saneamento básico e abastecimento de água, construção do mercado municipal, quartel dos Bombeiros Municipais, tribunal da comarca, piscinas municipais, zona verde e outras obras menos visíveis. Ganhava dez contos mensais, montante que subiu para 16 contos quando a Câmara de Alcanena passou a ser a segunda autarquia, depois de Santarém, a ter mais peso económico no distrito.
Quando foi eleito para a presidência da Câmara de Alcanena, Joaquim Henriques contava com quatro vereadores e resolveu atribuir pelouros aos autarcas da oposição, porque considerava que mereciam exercer, já que também tinham sido eleitos. Agora isso não se verifica, “os lugares não chegam para os do partido ganhador, quanto mais para a oposição”, refere com ironia.

Candidato aos 95 anos

Com 95 anos e uma energia de fazer inveja, Joaquim integra as listas do PS às eleições autárquicas de dia 1 de Outubro. Vai em 17º lugar na lista para a câmara, um lugar honorífico. “A Fernanda Asseiceira convidou-me e aceitei, porque acho que ainda prestigio o partido”, diz Joaquim Henriques, que ocupa os seus dias a passear com o filho Jorge, encontros diários com amigos, muita leitura, que a visão ainda é boa, e alguma televisão.
Mas a leitura é que o mantém informado. “O MIRANTE é o meu jornal regional para saber como anda a região”. Lê o Expresso todas as semanas e todas as publicações que estejam à mão nos lugares públicos que frequenta.
Com uma reforma de 980 euros mensais tem de gerir o orçamento de forma rigorosa, um hábito que também tinha quando estava à frente da câmara. Quando saiu, deixou 18 mil contos em caixa e obra feita e paga. Nunca o tentaram subornar, mas lembra-se de uma ocasião um empreiteiro ter pedido licenciamento para fazer um prédio com três andares em Alcanena e, quando chumbou o pedido, o empreiteiro disse-lhe que se o aprovasse não se iria arrepender. Manteve a posição e não licenciou o projecto. Mais tarde, o prédio foi construído com os três andares.
Depois de sair da câmara foi vice-presidente do Centro de Bem Estar Social de Alcanena, onde esteve 12 anos, porque sempre gostou de ajudar a comunidade e ainda hoje se lhe pedirem não recusa ajudar e participa como pode.
Joaquim Henriques considera que as eleições são importantes para os cidadãos escolherem quem os representa e lamenta que nas próximas eleições autárquicas o PSD e o CDS não apresentem candidato próprio em Alcanena porque considera que a disputa ficaria mais enriquecida.

“No meu tempo entrávamos na política para servir os interesses da comunidade”

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