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“Nunca andei na rua à espera de beijinhos e abraços mas felizmente tenho muitos”

“Nunca andei na rua à espera de beijinhos e abraços mas felizmente tenho muitos”

Personalidade do Ano Nacional - Júlio Isidro Profissional da Comunicação Social

Júlio Isidro fez cinquenta e oito anos de carreira na área da Comunicação Social a 16 de Janeiro deste ano. Começou pela televisão e só depois trabalhou na rádio. Fez centenas e centenas de entrevistas a artistas, tanto nacionais como estrangeiros. Sempre foi um reconhecido divulgador de talentos. É considerado um elegante sedutor com um refinado sentido de humor e vasta cultura que utiliza quando é de utilizar mas nunca exibe. É extremamente bem educado mas não é neutro e muito menos acrítico. Foi professor de cursos de Comunicação, escreveu livros para crianças e desde criança que é apaixonado por aeromodelismo.

Edição de 01.03.2018 | Especial Retrospectiva

Como se manifesta o “Lado Lunar” do sempre simpático e sorridente Júlio Isidro?

Em casa, em manifestações de grande indignação relativamente a vigarices, intrujices, impunidades e/ou maldades. Publicamente, basta ler ou ouvir as minhas metáforas, pintadas de humor para se perceber que estou zangado com uma boa parte do mundo.

Nunca brigou com ninguém? Nem sequer em criança?

Como dizia o pensador, não há nenhum homem que aos trinta anos já não tenha dito de outro: - Eu mato-o!! Em miúdo era pacífico, educado, amestrado e condicionado nos meus ímpetos bélicos.

No prefácio do primeiro volume, chamemos-lhe assim, da sua autobiografia “O Programa Segue Dentro de Momentos”, o Baptista-Bastos escreve que o Júlio Isidro “(...) não quer ser cúmplice de participar no embuste da omissão.”. No entanto, no livro, nota-se que passa à frente quando aborda episódios de traições, limitando-se, quando muito a um sarcástico “Também tu, Brutus?!”, por exemplo, nunca identificando os Brutos e os brutos que lhe calharam na rifa da vida. Se fossem estrangeiros era mais fácil nomeá-los?

Quando o meu querido Baptista-Bastos fala do embuste da omissão está a referir-se a todos aqueles que mesmo depois do Dia da Liberdade não tinham a liberdade de mostrar o que valiam nas suas artes. Em programas meus, nunca omiti ninguém.

Quanto aos malandros que conheci na vida, tive um ataque de amnésia no meu livro, para não lhes dar o gozo de serem citados.

Consegue brincar com o facto de ser hipocondríaco ou o assunto é demasiado sério para isso?

Depois do primeiro magistrado da Nação ter falado da sua hipocondria, constatei que sou apenas um modesto amador.

Já viveu alguma situação preocupante por causa dessa característica?

Lembro os versos do António Lobo Antunes, cantados pelo Vitorino : - Todos os homens são maricas quando estão com gripe.

No primeiro concurso para participar num programa da RTP foi o melhor em tudo mas rejeitaram-no com o argumento de ser feio. Nessa altura até chorou. Quando é que conseguiu ultrapassar por completo esse trauma que lhe criaram? Quanto tempo passou até alguém lhe dizer que era bonito?

Não chorei por ser feio. Chorei por sentir que ia ficar pelo caminho só por causa de um nariz. Nunca consultei psicólogos por causa da fealdade. Também nunca ninguém me disse que sou bonito. Fico-me pelo contentamento de me acharem sedutor na palavra e elegante nos gestos.

Tem conta, pelo menos no Facebook. Foi “a pedido de várias famílias”, como se costumava dizer, ou por vontade própria?

Foram as minhas filhas que me abriram a página, porque há uma que é falsa com fotos e tudo, e não há maneira do facebook a apagar apesar dos meus pedidos. Tem sido útil para eu falar da minha actividade profissional (não para angariar contratos), escrever sobre espectáculos a que assisto e deixar passar alguns momentos da família que me faz feliz.

O que pensa das redes sociais em geral?

São úteis, até para os boateiros, moralistas, justiceiros e carrascos do teclado. Mas, há tanta gente a mostrar o melhor de si que me faz crer que vale a pena ser feicebuqueiro.

Penso que ainda tem uma casa na zona do Cartaxo. Como foi parar ao Cartaxo? Deduzo que não tenha sido por se tratar da Capital do Vinho?

Fui à procura de ar, espaço, tranquilidade e de uma reforma que ainda não se concretizou. De tudo, menos cura de águas.

O que faz quando está aqui pelo campo, digamos assim? Aproveita e vai dar um passeio até Lisboa, por exemplo?

Gostava de ter tempo para agriculturar, jardinar e passear campos fora. Quanto a Lisboa, vou todos os dias à RTP, não assinar o ponto, mas trabalhar nos conteúdos dos meus programas.

Ainda vai ao teatro, ao cinema? A concertos?

Ainda? Não se pode estar na minha vida e profissão sem ler, ver, ouvir e aprender.

Basta ler o meu Facebook para saber o que faço depois de um dia de trabalho.

Por falar nisso...se fosse obrigado a viver sempre no campo ganhava uma neura de que tamanho?

Depreendo que se preocupa com o meu equilíbrio psíquico. Só me faz neura, a incompetência, a ignorância vaidosa, o oportunismo, a sabujice e o vedetismo de trazer por casa. Mas tenho a minha família para me ouvir desabafar.

Presumo que quando anda na rua ou às compras as pessoas metam conversa. Gosta disso? Já gostou mais?

Nunca andei na rua à espera de beijinhos e abraços mas felizmente tenho muitos. Posso dizer que nunca fui alvo de um tratamento indelicado. Se gosto? Muito, porque não se pode andar nesta vida só pelo cheque. O choque saboroso com os aplausos é o melhor que há. Nunca me incomodei com as pessoas que se me dirigem.

Ainda pensa no Ribatejo como um local de campinos, cavalos, toiros, bailadores de fandango e coisas assim?

Isso é uma pergunta que resulta de uma velha anedota. O Ribatejo é uma zona muito bela do país, com uma cultura própria mas não está cercado de muros. É tradicional mas também moderno, é passado mas também futuro.

Passa mais tempo a pensar no passado ou no futuro?

Passo mais tempo a pensar, ponto. Como é que vou arranjar tempo para escrever e editar o meu “Inesquecível”, como é que tenho tempo para escrever três livros que agora me encomendaram, como vou ter tempo para escolher a selecção musical do programa de rádio “Hotel Califórnia” da RR, quando é que vou até à minha oficina carpinteirar, quantos espectáculos poderei aceitar e até… como terei tempo para responder a esta entrevista.

Ao longo do livro “O Programa Segue Dentro de Momentos”, quando quer fazer uma comparação usa frequentemente exemplos da política. Ao referir-se à reparação de um dos seus primeiros modelos de avião com cola, pergunta porque não usaram a mesma técnica com as privatizações, por exemplo. Fala de um galo na cabeça a crescer... ao ritmo da dívida pública sessenta anos mais tarde. Na resposta em coro da turma fala num coro tão amestrado como o povo. Usa sempre alusões à política nestas situações?

Como o meu livro foi escrito num registo, se não de humor, pelo menos bem humorado, nada melhor do que analogias políticas para fazer rir. A política é olhada por mim com respeito. Os políticos….

Conheceu o Mário Viegas, que era de Santarém, e conseguiu a proeza de o ter a dizer/recitar poesia em horário nobre. Era fácil conseguir aprovação para um programa como o Palavras Ditas?

Pequeno enquadramento histórico. O Palavras Ditas começou por ser um programa de rádio que eu criei para o Mário Viegas falar comigo de poesia e dizer como só ele sabia. Durou dois anos e foi depois levado para a televisão. Já trazia o certificado de garantia do seu sucesso e da enorme qualidade artística do Mário.

Lê poesia? O que mais gosta de ler?

Leio poesia com o prazer de sentir que um poema nunca está lido e pode revelar-se sempre de novo. Poupo a lista porque felizmente Portugal é um país de poetas.

Com o país a envelhecer e a juventude a ver cada vez menos televisão porque é que a RTP Memória não é o canal com mais audiência?

A RTP Memória não é um canal de velhos e é o projecto mais bem sucedido do universo RTP. Sobe todos o meses e terá sempre e cada vez mais espectadores. Porque ali está a história da televisão, o imaginário de muita gente e também porque os jovens de hoje um dia também quererão revisitar o seu tempo.

Conheceu e entrevistou, ao longo de décadas, centenas e centenas de artistas. Como se sentiu quando um dia começaram estas denúncias de assédio sexual e a loucura que se lhes seguiu de linchar quem é acusado?

Não faço ideia se as centenas e centenas de artistas que entrevistei tiveram ou têm alguma coisa a ver com as denúncias feitas. Considero esta questão muita séria e até já maculada por falta de análise e excesso de especulações. As relações humanas são para mim o primado da vida. Vender papel ou publicidade à conta de assuntos sérios é um mau sinal dos tempos.

A sua estreia pública foi a ler um elogio fúnebre escrito pelo seu pai, no funeral do seu “tio” António Lé. Na altura esteve vários dias com febres de 40 graus. Se agora aceitar falar no funeral de uma pessoa amiga o que acha que lhe poderá acontecer?

Outro assunto sério. Emociono-me profundamente com a perda de pessoas de quem gosto, admiro e que fazem parte da minha vida. Se um dia falar numa situação de perda, chorarei com certeza.

Vai a funerais?

Tenho ido a poucos, mas quase nunca falto aos velórios. Creio ser inevitável estar presente no meu.

Como foi a experiência de estar no Festival da Canção do ano passado e deste?

Fui apresentador do Festival em dois anos, 1991 e 2015. O ano passado fui presidente de júri e reconduziram-me de novo este ano. Gosto do Festival, das canções, dos artistas, dos meus colegas de júri e de termos o Euro Festival em Portugal em Maio.

* Entrevista realizada por escrito

O comunicador de quem os portugueses não prescindem

Júlio José de Pinho Isidro do Carmo nasceu em casa, a mil metros da Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa, num dia 5 de Janeiro, estava a II Grande Guerra quase no fim. Chegou sem percalços assistido por uma parteira amiga da família, por volta da hora do almoço.
A primeira vez que falou em público foi para ler um texto de seu pai, numa homenagem ao seu padrinho de baptismo, António Lé, durante uma homenagem póstuma que lhe foi feita pela direcção do clube do bairro, o Valbom Atlético Clube. Nos três dias seguintes ficou de cama com febre altíssima, provocada por uma reacção psicossomática.
Frequentava o Liceu Camões quando a RTP decidiu criar um programa Juvenil e andou pelos liceus à procura de apresentadores. O ensaiador do coro e o instrutor de aeromodelismo inscreveram-no para ir prestar provas. Apesar de ter sido o melhor não foi escolhido, segundo lhe explicaram, por ser feio. No entanto acabaria por ser incluído no programa como autor e apresentador de uma rubrica de modelismo chamada “Mãos à Obra”.
A estreia foi no dia 16 de Janeiro de 1960 e ainda está no activo com muito para criar e apresentar, quer em televisão quer em rádio. Ajudou a revitalizar o canal RTP Memória onde é autor do programa Inesquecível e participa no programa Tráz Prá a Frente. Na Renascença faz parte da equipa do programa Hotel Califórnia.
Júlio Isidro é casado, desde 24 de Abril de 1998, com Sandra Isidro e tem duas filhas desse casamento: Francisca Isidro do Carmo e Mariana Isidro do Carmo. Tem uma filha do seu primeiro casamento, Inês do Carmo. Em 2016 editou uma autobiografia com o título “O Programa Segue Dentro de Momentos”, que foi a principal fonte consultada para a elaboração deste breve perfil. Entre muitas distinções, Júlio Isidro recebeu a Comenda da Ordem do Infante, em 2006, atribuída pelo Presidente da República, Jorge Sampaio.

“Nunca andei na rua à espera de beijinhos e abraços mas felizmente tenho muitos”

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