Tradições | 12-02-2024 10:50

Serranos, Campinos e Bairrões - Personagens que Povoam os Textos – O Garoto dos Papéis Velhos

Serranos, Campinos e Bairrões - Personagens que Povoam os Textos – O Garoto dos Papéis Velhos

Parece-me que quando a gente trabalha, conhecendo exatamente a utilidade do nosso serviço, pomos nele mais um pouco da nossa vontade e até da nossa alma.

Personagens que Povoam os Textos – O Garoto dos Papéis Velhos1

Costuma aqui [na Papelaria Central, em Santarém] passar um rapazinho de olhos vivos, que não contará mais de seis ou sete anos, que costuma pedir-me “os papelicos que eu já não queira para nada”.
Não se imagina a alegria com que ele emborca na sua saca esfiapada, os papéis que eu lhe guardo cuidadosamente no meu cesto de papeis inúteis.

–Para que queres tu estes papéis?
–P´ra quê?... P´ra vender?
–Tu não sabes ler?
–Ler, eu? Eu tenho lá tempo p´ra isso? Tomara eu arranjar um saco de papéis p´ra depois levar a minha mãi a ver se ela me dá alguma coisa de almoço…
–De que servem estes papéis a quem tos compra?
–Sei lá?... Compram-mos, dão dinheiro por eles… o resto…
Sim; o resto não é com ele…

Havia tolos que lhe compravam os papéis que não prestavam para nada. Bem queria ele saber disso, o que era preciso era que lhos comprassem por bom preço, quanto ao mais…

Se eu fosse rico levaria este rapazinho a uma fábrica de papel para ele ver como dos farrapos de papel que “para nada servia” conseguiam fazer papel novo, limpinho, capaz de voltar a receber os riscos da caneta e do lápis.

Parece-me que quando a gente trabalha, conhecendo exatamente a utilidade do nosso serviço, pomos nele mais um pouco da nossa vontade e até da nossa alma.

O rapaz dos papéis velhos seria mais pressuroso na colheita e até na escolha que depois faria, se soubesse a conveniência que teria em vender papéis de primeira escolha e papéis mais ordinários, devidamente seleccionados.

Sabe-o o homem que lhos compra; mas não lho diz; acha mais conveniente que ele continue ignorando tudo, que continue a prestar o seu serviço maquinalmente, às cegas, que é assim que o negócio rende. Em terra de cegos quem tem olho é rei.

1 Escrito por Francisco Serra Frazão em Santarém em 1939.

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