Projecto Eucalipto | 24-09-2026 09:31

Da Galiza à região do Norte e Centro de Portugal; o mesmo incêndio: o eucalipto que cresce onde o mundo rural desaparece

Da Galiza à região do Norte e Centro de Portugal; o mesmo incêndio: o eucalipto que cresce onde o mundo rural desaparece
Eucalipto para uns é uma praga que empobrece o território, seca as nascentes e é sinónimo de ataque à biodiversidade, e para outros é uma forma de rentabilidade económico que ajuda as populações do interior. Galiza e Norte e Centro de Portugal são territórios onde o problema é comum e faltam soluções a nível dos governos. foto ilustrativa

Galiza e o Norte e Centro de Portugal vivem o mesmo problema do abandono da propriedade e da expansão do eucalipto. Os fogos não conhecem fronteiras e há uma grande parte da comunidade dos dois países que atribui as culpas dos fogos à ganância da indústria que explora o eucalipto.

Em Portugal e na Galiza, a discussão sobre o eucalipto costuma começar pela árvore, mas talvez seja preciso começar pelo território. De um lado e do outro da fronteira, investigadores, engenheiros florestais, biólogos, proprietários, autarcas, bombeiros e gestores do território descrevem realidades diferentes na forma, mas surpreendentemente próximas na origem: campos abandonados, propriedades demasiado pequenas para serem economicamente viáveis, falta de mão-de-obra, dificuldade em conhecer e gerir os proprietários e uma floresta que cresceu mais depressa do que a capacidade de cuidar dela.

O eucalipto está no centro da polémica porque cresce depressa, tem valor económico e ocupa hoje uma parte significativa da paisagem florestal. Mas a árvore, por si só, não explica o fogo. Como lembra o engenheiro florestal Xoán Picos “ https://gal.galiciapress.es/artigo/economia/2026-06-26/5933851-seleccion-mina-doade-como-proxecto-estratexico-ue-segue-xudicializada-denuncia-ecoloxistas-accion-ante-tjue ” , na Galiza, é preciso distinguir duas perguntas que muitas vezes se confundem: o que faz começar um incêndio e o que permite que ele se transforme num incêndio fora de controlo. A resposta à primeira pode estar numa ignição acidental, numa falha eléctrica ou numa ação humana; a segunda depende da quantidade e continuidade do combustível, das condições meteorológicas, da humidade, do vento, da gestão da vegetação e da forma como o território está ocupado.

É uma distinção que também atravessa o debate português. Jael Palhas “ https://omirante.pt/entrevista/2026-08-19-um-dos-problemas-na-gestao-da-floresta-portuguesa-e-que-ignoramos-quase-tudo-o-que-nao-conseguimos-transformar-diretamente-em-dinheiro-fa876e65 ” chama a atenção para um problema mais profundo: durante décadas, a gestão da floresta foi pensada sobretudo a partir daquilo que pode ser transformado diretamente em dinheiro, deixando para segundo plano a biodiversidade, os serviços dos ecossistemas e outras funções do território. João Joanaz de Melo “ https://omirante.pt/entrevista/2026-08-13-portugal-precisa-de-uma-gestao-florestal-adaptada-a-cada-regiao-e-um-verdadeiro-ordenamento-do-territorio-75118cab “ vai mais longe ao defender uma gestão florestal adaptada a cada região e um verdadeiro ordenamento do território, porque o problema deixou há muito de ser apenas florestal. É também um problema de ocupação humana, de economia rural e de capacidade para manter a paisagem cuidada.

É aqui que Portugal e Galiza começam a parecer-se. Na Galiza, onde o minifúndio transformou a propriedade florestal num mosaico de parcelas muitas vezes demasiado pequenas para suportar uma gestão profissional, o eucalipto pode representar uma das poucas utilizações economicamente simples para um terreno abandonado. Juan Picos (“ na sua apresentação durante o evento da OFA, em Cantanhede”) refere que a dimensão não é uma limitação, as pessoas e a sua capacidade de organização podem resolver muitos problemas práticos no terreno.

Em Portugal, a fragmentação da propriedade produz dificuldades semelhantes. Júlio Catarino “ https://omirante.pt/entrevista/2026-08-05-gaviao-um-territorio-entre-a-beira-baixa-alentejo-e-ribatejo-onde-a-floresta-podia-ser-a-maior-riqueza-7a242ee9 “ conhece-as bem no Gavião, onde existem milhares de parcelas rústicas e onde os incêndios de 2017 deixaram evidente a fragilidade de estruturas criadas para gerir um território que já não corresponde à realidade social dos seus proprietários.

O paradoxo é evidente: uma pequena parcela pode não gerar rendimento suficiente para justificar uma gestão regular, mas pode ainda assim produzir algum dinheiro se for ocupada por eucalipto. É uma escolha economicamente compreensível quando as alternativas são poucas, mas que, multiplicada por milhares de proprietários e parcelas, pode transformar profundamente a paisagem.

É também por isso que Eduardo Corbelle, na Galiza, identifica o abandono rural como uma das forças que melhor explicam a expansão do eucalipto. Durante décadas, a população ligada à agricultura e à floresta diminuiu drasticamente, enquanto a propriedade permaneceu dividida em pequenas parcelas. O resultado não é necessariamente uma decisão coletiva para plantar eucaliptos, mas milhares de decisões individuais tomadas perante a ausência de alternativas. O que pode parecer racional à escala de uma parcela pode produzir consequências muito diferentes quando se olha para uma paisagem inteira.

Em Portugal, a mesma dificuldade aparece com outros contornos. Jorge Sousa “ https://omirante.pt/entrevista/2026-08-03-gerir-o-territorio-sem-conhecer-os-seus-proprietarios-e-um-obstaculo-intransponivel-para-a-estrategia-de-ordenamento-b6bcd9f9 ” resume o problema de forma direta: gerir o território sem conhecer os seus proprietários é um obstáculo praticamente intransponível ao ordenamento. Sem cadastro, sem informação atualizada e sem capacidade para reunir proprietários dispersos, muitas das políticas florestais ficam dependentes da iniciativa individual de quem permanece no território. E essa iniciativa, como lembra João Baeta “ https://omirante.pt/entrevista/2026-07-30-a-floresta-portuguesa-precisa-de-economia-de-maquinas-e-coragem-politica-para-se-aplicarem-medidas-impopulares-8190a2e9 “ , tem limites quando a propriedade é pequena, a exploração não é rentável e as medidas necessárias implicam custos ou decisões que os proprietários não querem ou não podem assumir.

É nesse espaço entre o abandono e a rentabilidade que o eucalipto encontra terreno para avançar.

Mas a questão não termina aí. O problema está também naquilo que acontece depois da árvore crescer. Uma floresta pode existir e, ao mesmo tempo, não estar verdadeiramente gerida. Pode ter árvores produtivas, mas caminhos bloqueados, vegetação acumulada, acessos degradados e continuidade de combustível suficiente para transformar uma ignição num problema de grandes dimensões. No Ribatejo, autarcas e responsáveis locais têm alertado precisamente para esta combinação entre eucalipto, abandono e caminhos inacessíveis, num território onde a presença da espécie aumentou significativamente ao longo das últimas décadas.

Kevin Monteiro, na Chamusca “ https://omirante.pt/projecto-eucalipto/2026-07-27-boa-gestao-do-eucalipto-nao-esconde-abandono-de-pequenos-terrenos-e298bcc2” , introduz outra nuance importante: grandes áreas de eucalipto podem estar bem geridas e, ainda assim, o risco permanecer elevado nas zonas onde a propriedade é fragmentada, falta mão-de-obra ou a floresta se aproxima demasiado das habitações. A questão, portanto, não é apenas saber que espécie está plantada, mas saber quem gere, com que meios, com que dimensão e com que continuidade.

Na Galiza, a dimensão do fenómeno ajuda a perceber a transformação. A área ocupada por povoamentos puros de eucalipto aumentou várias vezes desde os primeiros inventários florestais, enquanto a espécie foi avançando sobre um território marcado pelo abandono de usos agrícolas tradicionais. Ao mesmo tempo, a floresta continua fortemente privatizada e fragmentada, tornando a gestão coletiva uma das principais dificuldades. A moratória às novas plantações procurou travar a expansão, mas não resolveu a questão essencial: o que fazer com um território onde muitos proprietários têm poucas razões económicas para investir numa alternativa ao eucalipto.

Em Portugal, a discussão legislativa percorreu caminhos diferentes, mas enfrenta uma dificuldade semelhante: não basta limitar a plantação se não existirem instrumentos capazes de garantir a gestão do território que fica para trás. Miguel Jerónimo, do GEOTA “ https://omirante.pt/entrevista/2026-08-13-miguel-jeronimo-tecnico-do-geota-continuar-a-plantar-eucaliptos-e-um-erro-que-se-vai-pagar-caro-a-longo-prazo-b4cfc662 “, considera que continuar a aumentar a área de eucalipto é um erro de longo prazo, sobretudo quando se mantém um cenário de abandono e monoculturas. Margarida Belém, em Arouca “ https://omirante.pt/entrevista/2026-08-12-o-eucalipto-nao-deve-ser-demonizado-mas-integrado-numa-floresta-mais-diversa-e-resiliente-eab1957d “, introduz uma posição menos binária: o eucalipto não deve ser demonizado, mas integrado numa floresta mais diversa e resiliente.

Entre estas duas posições existe um território inteiro que se chama Galiza e Norte e Centro de Portugal, uma área diversa mas exatamente com os mesmos problemas que só se resolvem se os Governos implementarem politicas públicas há muito reclamadas.


O MIRANTE está a trabalhar num projecto editorial para identificar as consequências da eucaliptização no ambiente e no tecido socioeconómico de Portugal e da Galiza. O trabalho é apoiado pelo Journalismfund Europe e é realizado em parceria com o jornal digital Galiciapress. A Journalismfund Europe é uma organização sem fins lucrativos, com sede em Bruxelas, que procura fortalecer a democracia na Europa através do apoio ao jornalismo de investigação independente.

Pode consultar todas as notícias do projecto neste link

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