Sociedade | 11-06-2026 10:00

Livros da Carta Arqueológica da Chamusca encaixotados e esquecidos em edifícios municipais

Livros da Carta Arqueológica da Chamusca encaixotados e esquecidos em edifícios municipais
Joaquim José Garrido e Paulo Queimado

Várias centenas de exemplares da obra que levou a Polícia Judiciária à Câmara da Chamusca continuam armazenadas em instalações municipais. Ninguém mexe nos livros há quase dois anos e alguns funcionários ouvidos por O MIRANTE falam em “favorecimento político” entre Paulo Queimado e Joaquim José Garrido.

O livro da “Carta Arqueológica do Concelho da Chamusca” volta a estar envolto em polémica. O MIRANTE sabe que várias centenas de livros impressos estão armazenados em vários edifícios municipais, sem utilização conhecida e praticamente esquecidos. Segundo funcionários da autarquia ouvidos pelo nosso jornal, há quase dois anos ninguém toca nas obras, que permanecem empilhadas, longe do público e sem qualquer estratégia visível de distribuição. Dos mil exemplares impressos, mais de metade continuam por distribuir e encaixotados em imóveis municipais, segundo apurou o nosso jornal.
A primeira edição terá sido distribuída sobretudo por autarcas do concelho e colocada em alguns espaços culturais, como a biblioteca municipal. Já a segunda edição nunca teve uma verdadeira justificação pública. “Foi mais um favorecimento político”, afirma um trabalhador da autarquia, que pediu anonimato. “Vai ser muito difícil fazer alguma coisa com os livros que sobraram. Quem é que quer um calhamaço com centenas de páginas sobre algumas particularidades arqueológicas da Chamusca?”, questiona.
O caso deu polémica durante vários anos e foi denunciado por O MIRANTE em várias notícias. A Câmara da Chamusca, na altura em que Paulo Queimado era presidente, pagou 18.600 euros pela primeira edição de 500 exemplares da obra e, um ano depois, voltou a pagar o mesmo valor por uma segunda edição, também de 500 exemplares. A situação tornou-se ainda mais insólita porque a reimpressão manteve o mesmo preço unitário da primeira edição, apesar de normalmente uma segunda tiragem implicar custos de preparação mais reduzidos.
A aquisição foi feita por adjudicação directa a uma empresa dos filhos de Joaquim José Garrido, então presidente da Assembleia Municipal da Chamusca. Essa empresa viria, por sua vez, a contratar a empresa do pai, a Garrido Artes Gráficas, para executar a paginação, acabamentos e impressão da “Carta Arqueológica do Concelho da Chamusca”. O caso levou a Polícia Judiciária aos Paços do Concelho em 2023, tendo também havido buscas na Zaina e em casa do presidente da assembleia municipal. Mais tarde, Paulo Queimado confirmou em reunião camarária que tinha sido constituído arguido, tal como Joaquim Garrido.
Em declarações a O MIRANTE, Paulo Queimado sempre rejeitou qualquer ilegalidade ou falta de ética no procedimento. Sobre a subcontratação da gráfica de Joaquim José Garrido, disse não ter de saber como são feitas as subcontratações pelas empresas adjudicatárias. A obra, com 274 páginas, foi impressa em papel de qualidade, com capa dura e apresentação cuidada. Paulo Queimado justificou o investimento com a vontade de homenagear Mário “Pisco”, chamusquense ligado à arqueologia, entretanto falecido. Disse ter prometido fazer um livro técnico, mas também bonito, que dignificasse o trabalho do homenageado. A explicação, contudo, nunca afastou a perplexidade sobre o número de exemplares adquiridos, o preço pago e o destino dado aos livros.
Na ficha técnica das edições impressas não consta, como seria expectável, o número de exemplares nem a gráfica responsável pela impressão. No entanto, no repositório da Universidade de Évora, onde a obra pode ser consultada gratuitamente, surge a indicação de que o livro foi impresso, paginado e acabado na Garrido Artes Gráficas. O assunto foi debatido em algumas assembleias municipais, nomeadamente por intervenção do público. A munícipe Isabel dos Santos questionou onde tinha sido impressa a obra e perguntou se o espólio arqueológico associado ao livro estava acessível aos munícipes. Paulo Queimado respondeu que o espólio ficará no novo arquivo, devidamente catalogado, e remeteu explicações sobre a impressão da obra para o fim do processo judicial, prometendo responder por escrito.
Ao que O MIRANTE apurou (em actualização), o processo que envolve Paulo Queimado, que actualmente é deputado municipal por um movimento independente, e Joaquim José Garrido, continua na Justiça.

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