Tradições | 30-04-2024 10:20

Serranos, Campinos e Bairrões - Maneiras de Dizer na Borda d´Água

Serranos, Campinos e Bairrões - Maneiras de Dizer na Borda d´Água

O alforge, que em toda a parte se conhece, variando apenas na matéria de que é tecido, ou nas cores da lã ou dos trapos empregados no seu fabrico, é para o ribatejano o que é a pasta para o advogado

Maneiras de Dizer na Borda d´Água1

Contagem

A contagem, em quase todo o Ribatejo se faz conforme as espécies que se contam:

Os ovos contam-se por dúzias, os queijos por dúzias, havendo já muito quem adopte o pezo, que é mais certo; as sardinhas por quarteirões de 25; as melancias, uma por uma; as maçãs, peras, figos, tomates, ameixas, etc. já se vendem a pezo por quase toda a região.

Os cereais medem-se aos alquerires e cada sessenta alqueires é um moio; a cal é às fangas de quatro alqueires cada uma; e um moio de cal são sete fangas e meia; o bagago é aos alqueires, mas cada alqueire são dois: é contado a dobrar, como eles dizem. Dez alqueires de bagaço são vinte medidas de alqueire. Isto deve talvez provir do costume de se medir a azeitona às fangas; e, como a bagaço regulava por metade da azeitona empregada na moedura, mediriam o bagaço polo dobro, de maneira que uma fanga tivesse dois alqueires.

A palha de milho e os baraços para vencelhos de trigo são contados por cobras, uma cobra de baraços são cincoenta; e uma cobra de palha de milho, ou uma cobra de feno, são cincoenta molhos.

Os mutanos contam-se por talhas e assim contam tambem a fachina.

De volta

Andar de volta comir de volta com... é frase equivalente à que geralmente ouvimos: ir e mais alguém, andar e mais alguém, estar e mais alguém, ou em companhia de alguém, como alguns puristas dizem.

Numa frígida véspera de Natal, num cais do rio Tejo:

–Anda daí, home...Vais de volta co tio... levo aqui o alforge cheio de carne e cachola...e um garrafão tamen cheio... anda, home, anda de volta co tio…

Mas o rapaz olhava para a conchego das casas da vila para a extensa lezíria do Tejo, coberta de neblina e gelo, como deserto imenso, onde a vida fosse milagre, e não se resolvia...

–Nah! hoje não. Hoje fico cá... Calquer dia vou antão de volta cun-sigo e fico lá na pousada; mas hoje não.
Esta coisa de deixar o conchego da nossa lareira modesta, ainda que pobre, na véspera do Natal, para ir de alforges às costas, lezíria fora, a calcurrear lama gelada, com o vento a açoitar-nos o costado e a pôr-nos calafrios na espinha....

Por muita carne e cachola que ele levasse no alforge, e por muito grande que fosse o garrafão e por muito desabrigada e pobre que fosse a minha lareira, eu tambem não iria de volta co´tio, lá para os confins do Campo, metade invadido pela cheia....

1 Escrito por Francisco Serra Frazão em 1938.

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