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Foi a ver que aprendeu a arte de encadernar

Foi a ver que aprendeu a arte de encadernar

Aos 18 anos entrou para a Câmara de Coruche para trabalhar como coveiro mas meses depois já estava na reprografia do edifício dos paços do concelho. António Monteiro tem 54 anos e há 36 que trabalha entre fotocópias e papelada diversa. Aprendeu a encadernar e hoje é um artesão que também dedica os seus tempos livres a criar outras peças personalizadas.

Edição de 12.10.2016 | Sociedade

“Comecei a trabalhar na câmara como ajudante de coveiro aos 18 anos”, conta António Monteiro enquanto encaderna um livro na banca que teve na última Feira do Livro de Coruche. O funcionário da Câmara de Coruche nasceu há 54 anos nos Montinhos dos Pegos, uma localidade do concelho, e na conversa com O MIRANTE diz que começou a trabalhar para o município pela mão pai: “Ele falou com o encarregado da câmara e com um dos vereadores e como não havia ninguém para essa função de coveiro calhou-me. Foi um choque grande e meteu-me um bocado de impressão, porque nunca tinha visto um esqueleto”.
Meses depois, António entrou para a reprografia da câmara e há 36 anos que trata das fotocópias, digitalizações, folhetos e todos os trabalhos ligados à papelada. Aí descobriu o gosto pela encadernação, uma arte cada vez mais esquecida. Na reprografia da câmara tinha um colega, João Cadete, hoje com mais de 80 anos, que viu a encadernar e foi a observá-lo que começou a dar os seus primeiros passos.
Há cerca de 15 anos o encadernador entrou para a CORART - Associação de Artesanato de Coruche, através de um convite do seu responsável, Paulo Fatela, que lhe pediu que demonstrasse a sua arte. O encadernador duvidou, uma vez que pouco tinha a ensinar, mas durante os três meses em que esteve na associação deu a conhecer aos idosos e às escolas o seu ofício. “Também me obrigou a evoluir e a fazer outras coisas, como caixas de chá com cortiça, cadeiras e castanheiras forradas com cortiça”, acrescenta.
Com a CORART veio também a certificação. Paulo Fatela deu a conhecer a António Monteiro a CEARTE, entidade de Coimbra que depois de receber os trabalhos de António o certificou como artesão. Com o cartão que tem pode participar em feiras assim como conseguir apoios nas deslocações para feiras de arte.

Mulher dá uma ajuda
António Monteiro conta com a ajuda da mulher, também funcionária da Câmara de Coruche, que trata das pinturas dos cadernos que cria e da parte estética. “É uma enorme ajuda e embeleza os meus trabalhos”, diz. O artesão é presença regular na FICOR, na Festa do Toiro Bravo e noutras festas populares do concelho onde tem oportunidade de mostrar o seu trabalho que vive do boca a boca.
“Começam-me a trazer livros velhos e pedem-me para os recuperar e encadernar de novo. Neste momento devo ser o único a encadernar em Coruche. Há uma pessoa mais velha que também o faz, mas já tem a tipografia fechada. Esta é uma arte em desuso que vive dos particulares, porque fazer com máquinas não compensa. Esse é um nível mais industrial, para livros em série”, aponta.
As suas ferramentas são um tear, uma estrutura de madeira onde cose os livros, uma agulha e um fio de coco, recorrendo também à guilhotina da reprografia da câmara - no entanto António ressalva que tem a autorização do presidente e que só o faz depois do horário de expediente.
“Aparo os livros para quem assim os queira e utilizo ainda uma máquina para gravar lombadas em ouro ou em prata e tento recriar as originais. Vejo se há linhas partidas e encaderno. Normalmente perco sete horas divididas por dois dias de trabalho que fica por volta dos 12,5 euros”, revela António que faz ainda cadernos personalizados para notas ou para agenda revestidos a cortiça, com tecido ou desenhos.

Foi a ver que aprendeu a arte de encadernar

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