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“Nunca andamos a pregar no deserto nem mesmo quando ninguém liga àquilo que dizemos”

“Nunca andamos a pregar no deserto nem mesmo quando ninguém liga àquilo que dizemos”

António Campos da Nersant e Diamantino Duarte da Resitejo num “Dueto Improvisado” e bem afinado

Edição de 12.10.2016 | Sociedade

António Campos é director executivo da Nersant - Associação Empresarial da Região de Santarém. Diamantino Duarte é administrador delegado da Resitejo - Sistema de Tratamento de Resíduos do Médio Tejo. Têm cinco anos de diferença e um historial de participação política em partidos diferentes, sendo a ligação do primeiro ao PSD e a do segundo ao PS. O MIRANTE convidou-os para mais uma conversa da série “Duetos improvisados entre pessoas que tocam habitualmente a mesma música” e descobriu duas pessoas pragmáticas e sem tempo para perder com inutilidades ou discussões sobre o sexo dos anjos.

As raízes de António Campos estão em Moçambique. Foi lá que nasceu e foi lá que viveu até aos 13 anos. O conturbado processo de independência da antiga colónia originou algumas voltas e reviravoltas na sua vida. De Moçambique para a Madeira e da Madeira para Lisboa com passagem por alguns colégios e uma grande aprendizagem da vida. Ele fala em “amadurecimento” e revela as marcas que o fazem declarar-se “um democrata que pratica a democracia”.
“Em Portugal há o problema de não falarmos de História. Falamos de histórias mas a História está por fazer. Estive em Moçambique. Sei o que é uma República Popular. Sei o que é o marxismo-leninismo. Na altura para irmos de uma terra para outra tínhamos que ir pedir autorização à polícia. Havia barreiras no caminho onde tínhamos que apresentar aquele documento ou íamos presos. Também sei o que são os tribunais populares e o tipo de julgamentos que ali se faziam. Sei o que são decisões impostas pela força das armas. Disto as pessoas não falam”.
E acrescenta. “Isto passou-se lá e passou-se aqui no tempo do PREC (Processo Revolucionário em Curso) a seguir ao 25 de Abril. Há aí saudosistas dessa época mas não falam das limitações à liberdade.”, desabafa. “Eu sou um doente pela democracia e sou contra as retóricas sobre a democracia porque elas são como jardins sem flores”.
A aprendizagem de Diamantino Duarte foi feita a partir da aldeia de Tremês, no concelho de Santarém, onde nasceu e vive. “Tenho 59 anos e faz agora 50 anos que comecei a trabalhar. Saí da escola em Julho de 1966 e comecei a trabalhar na farmácia da terra no dia 13 de Outubro desse ano. Não tive muito tempo para brincar. Só tinha esse gosto no Verão, quando os dias eram maiores. Saía do trabalho às oito ou oito e meia e ainda dava para brincar um bocadinho. Fazia charruas com bocadinhos de cana, andava com o arco pelas ruas lamacentas e quando jogava à bola com os outros tinha o cuidado de me descalçar primeiro porque se aparecia em casa com as botas esfoladas, no dia seguinte não me deixavam brincar e tinha que ir ajudar na fazenda”.
O administrador delegado da Resitejo aprendeu o valor da liberdade e da democracia através de outro tipo de repressão. Conta que quando tinha treze anos dois agentes da PIDE (polícia política) foram à farmácia fazer-lhe perguntas sobre um vizinho que tinha ido a salto (emigrado clandestinamente) para França.
Aos 16 anos o rapaz da aldeia de Tremês ofereceu-se como voluntário para a Marinha. Não foi fácil porque os pais não concordavam mas levou a dele avante. Diz que foi a decisão mais importante da sua vida. Serviu durante quatro anos naquele ramo das Forças Armadas, viu mundo e realça a importância da experiência na sua formação. “Acho que todos os jovens deviam fazer um período de vida militar. Seis ou sete meses, por exemplo”.
António Campos também gostou da tropa. Fez o curso de oficiais em Mafra e foi colocado no Regimento de Infantaria de Tomar. O MIRANTE descobriu que recebeu um louvor do comando durante aquele período. Apesar de se considerar uma pessoa inconformada que não desiste de lutar pelo que acha certo, afirma-se um cultor da disciplina.
“Sou um homem que gosta de regras e disciplina. Aprendi muito na tropa. Foi um momento muito interessante para mim. Aqueles 16 ou 17 meses permitiram-me ter outra visão das coisas. Há muita gente que diz que não gosta de regras que se mostra satisfeita quando elas existem. Nas organizações, se não houver liderança e se houver regras as coisas não funcionam...ou só funcionam se o Orçamento de Estado der dinheiro. Na iniciativa privada sem regras não funcionam mesmo”.
O Eco Parque do Relvão, onde estão localizadas inúmeras empresas de resíduos foi um dos temas abordados. Porque estão por cumprir promessas de melhoria das acessibilidades, o que prejudica populações e empresários e porque a sua importância ultrapassa a dimensão regional. É para ali que são canalizados resíduos banais e perigosos, resíduos hospitalares e é ali que se situa o pólo empresarial da região de Santarém onde houve mais investimento nos últimos anos, num total que o director executivo da Nersant calcula ter sido superior a 500 milhões de euros, com a consequente criação de empregos.

Os cornos do ministro no dia dos jovens toureiros e o deputado desenrascado

António Campos foi deputado do PSD, eleito pelo círculo de Santarém, na X Legislatura, entre 2005 e 2009 e durante a conversa contou uma situação caricata que lhe aconteceu nos primeiros dias que passou no Parlamento. “O elevador onde entrei avariou entre dois pisos. Eu estava sozinho e toquei a campainha de alerta. Ao fim de algum tempo chegou um senhor que conseguiu abrir a porta exterior e que me disse que ia chamar a manutenção para puxar a caixa do elevador para um dos pisos. Assim que ele se foi embora, e como não me sentia à vontade para ser visto ali preso, nem hesitei, trepei como pude e saí pela abertura superior. Não sei quando chegou o pessoal da manutenção mas já não me apanhou lá”, diz a sorrir, sublinhando ser a primeira vez que conta o episódio em público.
O director executivo da Nersant recordou também um outro caso passado enquanto esteve no Parlamento. Foi a 2 de Julho de 2009. No plenário decorria o debate sobre o Estado da Nação e António Campos tinha convidado para uma visita ao Parlamento alguns jovens toureiros da região. “Vou sempre recordar esta visita pois deu-se a coincidência de ter sido nessa tarde que o então ministro da Economia Manuel Pinho fez, com os dedos indicadores, um gesto simulando uns cornos, quando estava no uso da palavra um deputado do BE, o que levou à sua demissão”.

O marujo de Tremês e o diálogo multilinguístico com o taxista norueguês

A viagem mais longa que o jovem Diamantino Duarte tinha feito até se oferecer como voluntário para a Marinha aos 16 anos, tinha sido entre a sua aldeia natal, Tremês e Santarém. A partir daí viu mundo e contactou com outras culturas embora, por vezes, as questões linguísticas tenham impedido um maior aprofundamento dos contactos.
“As únicas eleições em que não votei foram as de 25 de Abril de 1975. Na altura estava embarcado e participava numa missão da NATO. Tínhamos estado na Escócia e a seguir fomos para a Noruega. Num dia em que estava de serviço tive que ir de táxi ao navio americano buscar documentos. Como não falava norueguês nem sequer inglês, levava as indicações do destino escritas num papel e a viagem até lá correu bem. O pior foi tentar explicar ao taxista que só ia ao navio buscar os papéis e queria regressar ao ponto de partida”, relata o administrador delegado da Resitejo.
Falando português mesclado de umas palavritas espanholadas e com recurso a um desenho feito num papel, Diamantino Duarte lá explicou que queria voltar ao navio português mas o taxista devia estar desconfiado porque lhe pediu para deixar o boné da farda no carro.
Sem o poder fazer porque a missão exigia que estivesse devidamente uniformizado, a ajuda para o problema apareceu milagrosamente. “De repente vi passar ali perto um marinheiro espanhol com quem tinha estado na noite anterior num bar. Abri a porta do táxi e fui ter com ele para me ajudar. O taxista pensou que eu ia fugir sem pagar e foi a correr atrás de mim. Felizmente o espanhol esclareceu a situação mas mesmo assim teve que ficar ‘refém’ dentro do carro até eu regressar”.

“Nunca andamos a pregar no deserto nem mesmo quando ninguém liga àquilo que dizemos”

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