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Última Página: O trabalho e uma cabana à beira Tejo

Crónica sobre encontros de amigos, casas de madeira e os tempos em que havia governadores civis.

Edição de 14.02.2019 | Opinião

No domingo passado fui ouvir à Parede um arquitecto de Abrantes, Luís Morgado, falar de construções de madeira. A palestra era para um público de Lisboa que, regra geral, vive em apartamentos. Encontrei por lá o ex-Governador Civil, Nelson Baltazar, que é da família do arquitecto, e trocamos meia dúzia de palavras. O engenheiro Nelson Baltazar reformou temporariamente o político no activo que chegou a ser presidente da Distrital de Santarém do PS, deputado, secretário de Estado e Governador Civil. Durante a conversa disse-me que mantém actividade política mas como militante e que profissionalmente desempenha um lugar de assessor de administração de um hospital.

Vivi com ele, noutros tempos, um episódio digno de ficar guardado nas minhas memórias e que é inesquecível porque ainda hoje me define como cidadão e jornalista.

No domingo, a meio da tarde, pouco antes do nosso reencontro, percebi que estou a ser literalmente esmagado pela informação que levo para casa em três ou quatro publicações que compro. Deixei de ter tempo para ler dois livros por semana, para devorar os suplementos e os cadernos principais dos jornais e revistas que ainda me obrigo a comprar, mais os que leio em pé nas estações de serviço e nos espaços das livrarias, e isso mexe com a minha felicidade (a revista do Expresso, por exemplo, tem uma qualidade editorial e um conjunto de trabalhos editoriais que dificilmente conseguimos despachar em dois dias).

Fui ouvir o arquitecto Luís Morgado porque há uma dúzia de anos que planeio construir uma cabana junto ao Tejo. Depois de o ouvir percebi que afinal já não quero construir cabana nenhuma e que o melhor que tenho a fazer é ir de viagem para lugares onde possa viver essa experiência mas sem perder tempo a planear e a construir em madeira. Caso para dizer que fui à lã e acabei tosquiado.

Na noite desse domingo li vinte por cento do papel acumulado e acabei a dormir bem mais tarde do que é habitual. Rasguei uma dúzia de folhas para o meu arquivo, que muito provavelmente nunca mais vou consultar, nem que viva mais vinte anos, e achei que tinha proporcionado um festim aos meus neurónios.

No dia seguinte actualizei a agenda e direccionei a minha atenção para os assuntos de Abrantes e do território do Médio Tejo onde temos muito trabalho atrasado. Agendei mentalmente uma conversa mais demorada com Nelson Baltazar, e fiquei a pensar nele mais do que seria suposto, por todas as razões e mais esta: os governadores civis não mandavam grande coisa mas sempre eram a voz do Governo na região e habitavam uma casa onde podíamos ir protestar ou mandar recados para o Terreiro do Paço. JAE

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