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Andar a cavalo para combater as limitações
Utentes do CRIB de Benavente estão a ter terapia com cavalos

Andar a cavalo para combater as limitações

Utentes do Centro de Recuperação Infantil de Benavente têm sessões de equitação terapêutica no Centro Equestre da Lapa. Pessoas com autismo, paralisia cerebral e distúrbios emocionais e cognitivos andam a cavalo para trabalhar padrões de postura, aprender a gerir as suas emoções ou simplesmente, para sorrir e relaxar.

Edição de 20.02.2019 | Sociedade

No início de mais uma sessão de equitação terapêutica, Rita Silva, de 24 anos, diagnosticada com paralisia cerebral, não consegue conter as palmas e o sorriso. Vestem-lhe o colete de protecção e o capacete, antes de entrar no picadeiro. Rita não esconde a euforia. Sabe que falta pouco para trocar a cadeira de rodas pelo dorso da Maybe, uma égua dócil que Rita já conhece bem.
Há dois anos que 14 utentes do Centro de Recuperação Infantil de Benavente (CRIB) frequentam aulas de equitação com fins terapêuticos, no Centro Equestre da Lapa, em Benavente. Divididos em dois grupos, uma vez por semana, cada um monta a cavalo durante 20 minutos, acompanhados por uma monitora de equitação e uma técnica de saúde.
Durante a terapia esquecem os medos, as limitações físicas ou mentais e disfrutam, enquanto vêem o “mundo lá de cima e ele se move pela passada de um animal de 400 quilos”, diz a monitora, Raquel Lapa, que considera o trabalho ali desenvolvido “extremamente benéfico para o desenvolvimento motor, psicossocial, cognitivo e emocional”, dos alunos. No caso da Rita, as melhorias têm sido uma constante, refere, lembrando os relatos da mãe que “já a consegue manter sentada em cima da cama”, sem que perca o equilíbrio.
Enquanto Rita executa a sua terapia em cima da montada, outros seis utentes aguardam pela sua vez. Sentados numa cadeira, alguns de mãos dadas, o sorriso não lhes larga o rosto. Chega a vez de João Marco, o aluno mais velho. Tem 45 anos e é autista. Raquel Lapa troca a sela - que ajuda Rita a manter o equilíbrio - por um arreio de volteio, para que João “consiga sentir os estímulos do cavalo”, que o ajudam a relaxar e a trabalhar a sua postura.
É Inês Felisberto, técnica superior de educação especial e reabilitação, com formação em equitação terapêutica, que traz João Marco para o picadeiro. Se no “primeiro dia sentiu medo e esteve escassos segundos em cima do cavalo”, agora fica triste quando tem de descer da montada. Para este aluno, a Maybe é cor-de-laranja, “porque é a cor preferida dele”. “É um sinal que lhe transmite confiança e em todas as sessões o lembramos da cor, para ele saber que é seguro estar em cima da Maybe”, explica Inês Felisberto.
Raquel Lapa lamenta que só haja sessões uma vez por semana. Até porque a auto-estima também é trabalhada em cima do cavalo. “Montar um animal que pesa entre 400 a 600 quilos, fá-los sentir que são capazes”, acrescenta.

Terapia é dispendiosa e não chega a todos
O CRIB é uma IPSS com respostas sociais em intervenção precoce, Centro de Actividades Ocupacionais (CAO), lar residencial e valência educativa. “O número de utentes é elevado e por falta de meios financeiros esta terapia não pode chegar a todos”, explica a técnica do CRIB. Nestes dois anos são “praticamente os mesmos utentes” a beneficiar da terapia equestre, “para que os resultados pretendidos sejam alcançados”, esclarece Inês Felisberto que, em conjunto com a restante equipa técnica da instituição, faz a selecção dos alunos que mais podem beneficiar com essa resposta terapêutica.
Cada aluno tem os seus objectivos traçados, mas os benefícios estão presentes em todas as áreas. “Há uma melhoria significativa a nível motor, cognitivo, emocional e na socialização com o próprio animal, a monitora e os tratadores do centro equestre”, afirma a técnica do CRIB, enquanto faz sinal para Fábio Roque se aproximar. Tem 19 anos, é autista e em substituição de outro utente vai ter a sua primeira abordagem à equitação terapêutica. As mãos tremem-lhe com o nervosismo. Se conseguisse verbalizar possivelmente diria que o medo é tanto que não sabe se é capaz.
Inês Felisberto diz-lhe: “É seguro, podes tocar. Faz-lhe uma festinha”. Num gesto rápido Fábio toca na Maybe. Com ajuda sobe para cima do dorso da égua e a ansiedade desaparece instantaneamente. O relaxamento de Fábio surge, porque em primeira instância, “montar a cavalo é uma descoberta de prazer”.

A importância da escolha do cavalo

Na equitação com fins terapêuticos, há requisitos a cumprir na escolha do animal. “Tem de ser um cavalo equilibrado, de trato fácil e que saiba reagir ao toque”, explica Raquel Lapa, admitindo que é difícil encontrar-se o cavalo ideal para estas funções. Não deve ter um dorso demasiado largo, “para não causar danos musculares”; principalmente nos alunos com fraca ou ausência de mobilidade nos membros inferiores. A passada do equino deve ser média, para provocar estímulos sensoriais na dose certa.

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