Tradições | 30-04-2024 10:20

Serranos, Campinos e Bairrões - Maneiras de Dizer na Borda d´Água

Serranos, Campinos e Bairrões - Maneiras de Dizer na Borda d´Água

A extensão das campinas que o Tejo fertiliza e das mesmas charnecas, sua natural continuação, obriga os pastores a passar a semana inteira longe do povoado.

Maneiras de Dizer na Borda d´Água1

Pousada

Casa de pastor.

A extensão das campinas que o Tejo fertiliza e das mesmas charnecas, sua natural continuação, obriga os pastores a passar a semana inteira longe do povoado; por lá constroem umas casitas de paus espetados no solo com as paredes entretecidas de tojos bravos, tão bem calcados e batidos que chegam quase a ficar imunes contra o próprio fogo. O telhado é de colmo ou mesmo de mato e de feto.

A pousada tem quase sempre a forma quadrada ou rectangular, com uma só porta para o exterior. Pode constar de uma divisão apenas, ou de duas, quando muito; porque alguns pastores são casados e gostam de ter consigo as respectivas consortes.

No meio da pousada fazem a fogueira, cujo calor os aquece e cuja fumarada vai enegrecendo os tojos da construção de tal maneira que, com o andar dos anos, internamente, as paredes são de um negro brilhante; e todos os objectos que ali se guardam têem um cheiro a fumo muito especial e característico.

Suspenso em duas cordas que prendem no tecto, costuma haver um pau alongado, em que penduram as mantas que trazem às vezes bem encharcadas, coitados, os alforges, o fato domingueiro e outros artigos do seu arranjo.

Numa das parades laterais costuma haver, dependurada também, uma cana grossa, com diferentes ranhuras onde se colocam os garfos de ferro e as colheres de madeira ou de corno.

E, para que os ratos nao façam das suas, penduram no tecto uma ponta de pinheiro, convenientemente esgalhada, com uns pedaços de ramo obliquados para cima, fazendo o ofício de cabides, onde colocam o corno com azeite e quaisquer outras iguarias a que os ratos, se lhes chegassem, não poderiam resistir. E, por cautela, para que os malditos não possam descer pela corda da suspensão, presservam-na com um largo disco de folha, obstáculo intransponível para o rato mais astuto...

Esta é a pousada onde se passam serões interessantes.

Tapada

Fazenda agrícola, na qual vive o dono ou rendeiro com a sua própria família. Espécie de açude junto do rio, para captar ou demorar parte das águas. Vedação de propriedade.

Em Salvaterra, chamam-se foros às propriedades com casas para o foreiro, rendeiro, ou mesmo proprietário, desde que a propriedade deixou de ter o odioso encargo. Em Benavente chamam-se fazendas, quer sejam livres ou foreiras; e em

Samora tomam o nome de tapadas, e os seus cultores e habitantes chamam-se tapadeiros, gosando de certo menospreso por parte dos habitantes da vila, como se dá, comparando, entre os saloios e os habitantes de Lisboa...

"Fazendas fazendo-as", diz o povo do Ribatejo; e porque assim é, compram ou arrendam um pedaço de charneca bravia, levantando-lhe um valado em todo o perímetro, constroem dentro uma casa que pouco difere da usual pousada, abrem um poço e fazem, logo na primeiro ano, a sua sementeira ou plantação de batatas.

Os primeiros meses é que a coisa se passa mal a valer; mas logo que chega o meado de Abril e a tapadeira começa a esgaravatar junto do pé das batateiras, está a batalha vencida; já não há que temer senão algumas sezões que são teimosas como o diabo e deixam a gente com cara de desenterrado. No ano seguinte já fazem os adobes para a casa de habitação e escolhe-se para ela o melhor local, nem sempre o mais saudável, mas aquele donde se enxergue toda a propriedade...


1 Escrito por Francisco Serra Frazão em 1938.

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