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José Mimoso: um pastor de gado bravo que nunca teve férias
José Mimoso passa os seus dias a cuidar da horta e da égua Hermosa

José Mimoso: um pastor de gado bravo que nunca teve férias

Vila Franca de Xira distingue este ano o campino José ‘Mimoso’. Trabalhou mais de trinta anos em várias casas agrícolas. Este ano o mérito do seu trabalho vai ser reconhecido publicamente nas festas do Colete Encarnado.

Edição de 10.07.2019 | Sociedade

Corriam os anos 40 do século passado quando José Joaquim da Silva chegou a Santarém com oito dias de vida. Embrulhado numa manta, este filho de pai cartaxense e mãe benaventense, nascido em Lisboa, foi entregue aos cuidados dos avós maternos. Esse dia ditou-lhe o destino: ser campino ao lado do avô que o criou.
José ‘Mimoso’, como é conhecido, foi o escolhido para ser homenageado no próximo sábado, 6 de Julho, nas festas do Colete Encarnado, em Vila Franca de Xira. Esta é a primeira homenagem ao homem que se define como um simples pastor de gado bravo. E já não a esperava. “Achei que isto das homenagens era só para os abegões e moirais reais, não para o homem do pau e da manta”, confessa. Quando lhe deram a novidade, não queria aceitar, mas ao imaginar-se do alto do seu cavalo a viver a festa naquela cidade mudou de ideias. “Vila Franca de Xira é a Sevilha de Portugal, é terra de touradas e afición como não há igual. Fico feliz, claro que fico”, afirma.
O avô foi pai e mestre
Aos cinco anos já montava e a arte da campinagem foi-lhe ensinada pelo seu avô, João Rodrigues, cocheiro na Casa Vigário, em Santarém. Começou a tomar conta de carneiros aos oito anos e já nessa altura era no campo que se sentia feliz. À escola pouco gostava de ir e ainda hoje não é adepto de grandes leituras. Preferia agarrar-se ao trabalho e ver o avô a conduzir o gado montado no seu cavalo, o ‘Mimoso’.
“O meu avô trabalhava com outro João e aquilo era uma confusão quando chamavam por um, até que se decidiu que ele ficava o João Mimoso, por causa do cavalo. Mais tarde fiquei eu com o mesmo nome”, conta, deixando o orgulho transparecer. “As lágrimas só me vêm quando falo nele. Foi o meu pai”, afirma.
Com 21 anos foi campino na Casa Dom Duarte da Atalaia, actividade que interrompeu para cumprir o serviço militar que o levou até ao golfo da Guiné. Antes de partir houve tempo para trocar alianças com Antónia Silva. Estão casados há 55 anos e têm três filhos.
Regressado da vida militar voltou à campinagem. Passou pela Casa Agrícola Lima Monteiro, em Santarém, pela Casa Agrícola Francisco Ribeiro, em Vila Chã de Ourique, e Quinta do Mocho, em Santarém. Pelo meio tentou mudar a sua sina e foi trabalhar para a Câmara de Vila Franca de Xira. Não se aguentou por lá. Faltava-lhe a liberdade do campo. “O gado chamava por mim. A minha vida foi viver do campo e a ele pertencer”, diz. Foi na Casa Agrícola de Herdeiros de Paulino da Cunha e Silva, em Alcanhões, que trabalhou como moiral, até uma lesão na coluna o atirar para a reforma aos 55 anos.

Dormir ao relento no meio do gado
A vida de trabalho foi dura. Não deu direito a luxos nem houve tempo para gozar umas férias. “Não sei o que é uma praia. Não tenho automóveis, nem sei o que é passear. Quando era mais novo só tinha o pau e a manta, que me agasalhava à noite”. Dormia ao relento, no meio do gado bravo. “Cada touro tinha o seu sítio para dormir e eu ficava no meio. Falava-lhes antes de me enrolar na manta e adormecer”, lembra.
Naquele tempo o gado era guardado a pé. Ia eu de saco às costas levar-lhes a ração. E não tinha medo? “Respeito. Estavam habituados a mim e respondiam à minha voz, como se de uma manada de cabras se tratasse”. Fez trabalho de praça, ao serviço das casas que serviu. “Quando era novo gostava, depois de velho já nem tanto. Estava a ser falso para os animais. Eles confiavam em mim e eu levava-os para a morte. Entristecia-me saber que não os voltava a ver”, diz, vincando que é a favor das corridas de touros. “Sem elas o gado bravo já não existia. É uma tradição que não deve morrer nunca”.
Mas de picarias nunca foi amante. “Nunca gostei de me exibir. Picar o touro era quando andava há três dias na estrada com eles e de manhã teimavam em não se levantar”. Dessas viagens lembra a fome e o cansaço. “Mal descia do cavalo. Pior ainda era o povo, que nos fazia esperas só para tresmalhar a manada”, conta.

Sonha com o campo antigo
Agora os tempos são outros. Da campinagem, da qual se despediu, já pouco resta. “Somos cada vez menos. O trabalho faz-se em cima de um tractor, oito horas por dia e já ninguém usa o traje de trabalho. É o que me dá maior desgosto”, afirma ele que usava diariamente a calça de cós largo, o colete e o barrete. “O verdadeiro traje de campino. Este aqui - diz apontando para o que traz vestido - era só para o serviço fora da casa. Nunca gostei de o usar. É roupa de criado”, aponta.
Para José ‘Mimoso’ os dias passam agora mais lentamente, a cultivar a horta que tem no quintal e a cuidar da égua, a Hermosa. Saudades do campo? “Parece que já não as há. Mas ainda sonho com o campo antigo, onde só andava eu e o gado. Esse deixa-me saudade”.

José Mimoso: um pastor de gado bravo que nunca teve férias

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